GAECO Denuncia “Engrenagem Criminosa” na Polícia Civil da Paraíba; Delegado e Investigadores Acusados de Desviar Cargas de Drogas de Mais de R$ 1 Milhão
GAECO Desvenda Suposta “Engrenagem Criminosa” na Polícia Civil da Paraíba com Denúncia Contra Delegado e Investigadores
Uma investigação que começou de forma inusitada, a partir de vídeos divulgados em redes sociais, pode ter descoberto uma grave infiltração criminosa na Polícia Civil da Paraíba. O Ministério Público da Paraíba, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), apresentou denúncias contra o delegado Braz Morroni de Paiva Junior e os investigadores Everton Rychelyson da Silva Aires, o “Bomba”, e Eduardo Jorge Ferreira do Egito, o “Mão Branca”.
As acusações, detalhadas em mais de 140 páginas de denúncias que integram a Operação Perfidus, apontam para uma “engrenagem delitiva infiltrada na Polícia Civil”, envolvendo agentes públicos e indivíduos ligados ao narcotráfico. É crucial ressaltar que estas são acusações formuladas pelo MP e ainda dependem de julgamento, com os denunciados tendo direito à ampla defesa.
As denúncias descrevem dois episódios distintos, mas com dinâmicas semelhantes, ocorridos em setembro e outubro de 2025. Segundo o GAECO, em ambas as situações, policiais teriam ingressado em imóveis onde sabiam haver grande quantidade de entorpecentes, subtraindo a carga e desviando a maior parte do material. Documentos públicos teriam sido posteriormente produzidos para registrar oficialmente apenas uma fração do que foi apreendido.
GPS e Celulares Revelam Rota da Suposta Carga Desviada
No episódio de outubro, dados de geolocalização da própria viatura policial foram peças-chave para o GAECO. A acusação aponta que o veículo permaneceu por 25 minutos em um imóvel investigado, para depois seguir em direção à residência de um dos investigadores denunciados. Esse trajeto, segundo o MP, seria compatível com a retirada e posterior guarda da droga.
A investigação não se baseia apenas em depoimentos. O Ministério Público apresentou um conjunto robusto de provas, incluindo dados digitais, localização de veículos e celulares, mensagens, vídeos e documentos policiais. A análise de um celular apreendido na Penitenciária PB1, com Lucas Rodrigues Barbosa da Silva, o “Mobita”, e de dois aparelhos encontrados com o delegado Braz Morroni, permitiu reconstruir o suposto método.
O cruzamento dessas informações sugere que policiais recebiam informações sobre esconderijos de drogas, realizavam incursões nesses locais, desviavam parte dos entorpecentes para posterior comercialização. A carga apreendida em um dos casos foi avaliada em mais de R$ 1 milhão, com conversas indicando a possibilidade de venda por R$ 50 mil o quilo.
Boletins de Ocorrência Atrasados e Inconsistentes Levantaram Suspeitas
Um ponto que chama atenção nas denúncias são os boletins de ocorrência (BOs). No caso de setembro, a ação teria ocorrido em 12 de setembro, mas o registro oficial só foi feito três dias depois, em 15 de setembro, com um dos investigadores como comunicante e outro como testemunha, e o delegado determinando a confecção. No episódio de outubro, a defasagem foi ainda maior, com o BO registrado seis dias após a incursão.
O Ministério Público sustenta que informações falsas foram inseridas nesses documentos para dar aparência de legalidade às ações e ocultar a quantidade real de drogas subtraída. A repetição desse padrão em diferentes ocorrências fortalece a tese de uma “engrenagem criminosa” atuando dentro da corporação.
Vídeos Anônimos no Instagram Deram o Pontapé Inicial na Operação Perfidus
A Operação Perfidus, conduzida pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRACO), teve seu pontapé inicial a partir de denúncias anônimas publicadas em um perfil do Instagram. Vídeos mostrando uma abordagem policial foram preservados e analisados forensemente, dando início a uma investigação que acumulou mais de mil páginas de evidências telemáticas, relatórios financeiros e transcrições de áudios.
A acusação imputa aos três policiais quatro crimes em concurso material: furto qualificado pelo concurso de pessoas, abuso de autoridade, falsificação de documento público e fraude processual majorada. Embora o contexto investigativo mais amplo envolva suspeitas de organização criminosa, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, estes delitos são objeto de procedimentos separados.
GAECO Pede Prisão Preventiva e Compartilhamento de Provas
O GAECO não se limitou a apresentar a denúncia. O Ministério Público solicitou à Justiça a conversão das prisões temporárias dos três policiais em prisões preventivas. Além disso, pediu o compartilhamento das provas obtidas na Operação Perfidus para subsidiar outros procedimentos e futuras investigações.
O GAECO também pediu o arquivamento da denúncia em relação a outros dois nomes citados, José Alexandrino de Lira Júnior e João Wicttor Alves de Lima, por entender que não havia justa causa suficiente para indiciá-los pelos mesmos crimes no caderno investigativo específico. A investigação, que desmembrou a Operação Perfidus em diversos procedimentos, pode estar longe do fim, com os autos descrevendo um cenário que, se comprovado, vai além da corrupção policial, sugerindo a utilização do aparato estatal para desviar drogas e reinseri-las no circuito criminoso.
