Escândalo do INSS revela teia de chantagem e pagamentos controversos envolvendo políticos e entidade rural, com desdobramentos surpreendentes da Polícia Federal

Escândalo do INSS revela teia de chantagem e pagamentos controversos envolvendo políticos e entidade rural, com desdobramentos surpreendentes da Polícia Federal

Investigação da Polícia Federal expõe intrincada rede de pressões políticas e supostos pagamentos ilícitos que abalam a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares

A Polícia Federal (PF) apura uma grave denúncia de chantagem envolvendo o presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), Carlos Lopes. Ele teria tentado intimidar o deputado federal Eros Biondini (PL-MG) com a ameaça de divulgar informações sobre pagamentos recebidos pela filha do parlamentar, Chiara Biondini, da própria entidade. Este desdobramento surge no contexto da Operação Sem Desconto, que investiga descontos indevidos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), conforme relatado pela Folha de S.Paulo em 17 de julho de 2026.

O suposto plano de chantagem foi articulado no fim de 2025, motivado pela insatisfação de Carlos Lopes com o apoio do deputado Eros Biondini à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do INSS. Adicionalmente, Lopes considerou uma “traição” o pedido de Biondini para investigar a execução de uma emenda parlamentar de R$ 5 milhões, direcionada por ele mesmo ao Instituto Terra e Trabalho (ITT), uma organização ligada à Conafer.

Pagamentos controversos e a estratégia de intimidação

A apuração da polícia revela que Chiara Biondini foi contratada pela Conafer em 2021, aos 19 anos, e recebeu ao menos seis pagamentos de R$ 10 mil. Em 2023, ela assumiria o mandato de deputada estadual em Minas Gerais. Em comunicações interceptadas pela PF, Vinícius Ramos, advogado do presidente do ITT, indicou que Chiara recebeu os valores “sem fazer nada”. A corporação, por sua vez, classificou os pagamentos como “salários fictícios”, afirmando que o episódio foi explorado pela liderança da organização criminosa como instrumento de coação política.

A estratégia de chantagem teria envolvido o deputado Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), a quem Carlos Lopes e Vinícius Ramos teriam solicitado que repassasse a Eros Biondini a insatisfação e a ameaça de expor os pagamentos à sua filha. A PF sustenta que “Carlos e Vinícius utilizaram os comprovantes dos pagamentos feitos pela Conafer a Chiara como instrumento de chantagem política contra o deputado Eros Biondini”, por intermédio de Euclydes.

Defesas e implicações sobre corrupção

Em nota conjunta, o deputado Eros Biondini e sua filha, Chiara, afirmaram ter colaborado com as investigações da PF. O relatório da apuração, segundo eles, trouxe a seguinte conclusão:

“não identificou qualquer ato irregular e muito menos atitude ilícita dos dois congressistas”.

Em seus depoimentos à PF, Chiara relatou ter sido contratada após um processo seletivo e que, apesar de pedir tarefas, era constantemente orientada a aguardar, o que lhe causou “forte incômodo e insatisfação”. O deputado federal, por sua vez, informou ter indicado emendas ao ITT por sugestão de Euclydes Pettersen, desconhecendo a conexão da entidade com a Conafer. A Polícia Federal, contudo, considera que o ITT possui uma ligação “umbilical” com a Confederação.

Em um diálogo capturado pela PF, o presidente da Conafer orientou Vinícius a não divulgar os pagamentos a Chiara, justificando que era

“para não cair para cima da Conafer pagamento de propina”.

Para a Polícia Federal, essa conversa sinaliza que Carlos Lopes, apontado como “líder do esquema”, reconhecia a natureza corrupta dos pagamentos, buscando evitar a acusação de “pagamento de propina” à Conafer. Vinícius também teria mencionado que Eros Biondini prometeu obter pareceres favoráveis à Conafer junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Ministério do Trabalho.

Indiciamentos e desdobramentos da operação

O relatório da PF concluiu o primeiro inquérito da Operação Sem Desconto com 48 indiciamentos. Carlos Lopes e Vinícius Ramos estão na lista, enquanto Eros Biondini e Chiara Biondini não figuram entre os indiciados. Já o deputado Euclydes Pettersen foi indiciado por suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A corporação aponta que Euclydes teria se beneficiado de pelo menos R$ 14,7 milhões em propinas mensais fracionadas, movimentadas por contas de passagem de lotéricos e empresas de fachada. Em resposta, Euclydes negou qualquer envolvimento nos fatos investigados pela Operação Sem Desconto, afirmando que a versão da investigação será contestada por sua defesa.

A Conafer, por meio de nota, declarou respeito ao trabalho da Polícia Federal, mas enfatizou que o indiciamento é uma manifestação da fase investigativa. A entidade reforçou que esse estágio:

“não representa denúncia oferecida pelo Ministério Público, tampouco julgamento ou condenação judicial”.

Francisco Araújo

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