Farra bilionária no INSS: Líderes de igrejas evangélicas do Distrito Federal indiciados em megaesquema de corrupção e lavagem de dinheiro que sangrou aposentados em R$ 6 bilhões

Farra bilionária no INSS: Líderes de igrejas evangélicas do Distrito Federal indiciados em megaesquema de corrupção e lavagem de dinheiro que sangrou aposentados em R$ 6 bilhões

A polícia federal indiciou dois fundadores de igrejas evangélicas em Brasília, juntamente com 46 outras pessoas, por envolvimento na complexa teia de fraudes da ‘Farra do INSS’.

Dogival José dos Santos e Lucineide dos Santos Oliveira, figuras centrais de congregações evangélicas na capital federal, foram formalmente acusados nesta quarta-feira (14/7) de integrar um sofisticado esquema de corrupção e desvio de verbas. As investigações apontam para um prejuízo estimado em R$ 6 bilhões aos beneficiários do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), conforme informações da Polícia Federal.

Detalhes da acusação contra Dogival José dos Santos

Dogival José dos Santos, conhecido por fundar a Cruzada Nacional de Evangelismo em 1996 – registrada como “Primeira Igreja Pentecostal Cristo a Esperança”, em Ceilândia – é um dos indiciados. Antes da descoberta do esquema de fraudes no Instituto Nacional de Seguro Social, ele presidia a Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), uma das ONGs envolvidas nos descontos indevidos. Relatórios da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS também citam Dogival como um dos líderes do núcleo familiar e operacional do grupo “Santos”.

As apurações da CPMI indicam que Dogival utilizou entidades como a AAB e o Instituto Terra e Saúde (ITS) para acessar dados de segurados e desviar ativos previdenciários. Ele assumiu a presidência da AAB em outubro de 2022, no período em que a instituição, inicialmente voltada à habitação, foi convertida em associação de defesa de aposentados. Entre 2019 e 2025, Dogival realizou 353 depósitos para Lucineide dos Santos Oliveira, totalizando R$ 741.370,58, caracterizando a técnica de “smurfing” para ocultar o rastro do dinheiro. O indiciado é ainda acusado de gerir recursos ilícitos com seu filho, Dogival José dos Santos Júnior, e com Samuel Chrisóstomo, contador da Conafer, por meio do ITS e de empresas de fachada.

O envolvimento de Lucineide dos Santos Oliveira na rede criminosa

Lucineide dos Santos Oliveira, presidente da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, localizada no Recanto das Emas, também figura entre os indiciados pela Polícia Federal. Ela atuava como tesoureira da AAB e, segundo a comissão, integrava o núcleo financeiro e administrativo da organização criminosa que operava as fraudes da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer). Sua participação se estendia à gestão de empresas de fachada, operacionalização de descontos indevidos e dissimulação dos lucros criminosos, sendo considerada uma operadora estratégica na lavagem e dispersão de recursos desviados de aposentados.

Dados financeiros revelam que Lucineide recebeu R$ 160,9 milhões como pessoa física entre 2019 e 2025, sendo R$ 113 milhões provenientes diretamente da Conafer. Uma incompatibilidade flagrante com sua situação econômica:

Essa movimentação é flagrantemente incompatível com sua realidade econômica, visto que em 2022 ela tinha renda formal de apenas R$ 2 mil e histórico de inscrição no CadÚnico.

A investigação aponta que Lucineide transferiu R$ 40 mil, em 2024, para Pedro Alves Corrêa Neto, um servidor identificado como facilitador de processos das associações no DIRBEN/INSS. Sua empresa, Expresso Marketing, enviou R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde (controlada por Danilo Trento) e repassou R$ 5,94 milhões para o BK Bank, instituição sob investigação por lavagem de dinheiro. Outras transações incluem R$ 600 mil para o Auto Posto Topa Tudo, em Minas Gerais, e cerca de R$ 700 mil para o escritório de Milena Câmara, filha do Deputado Federal Silas Câmara, em pagamentos que coincidiram com reuniões entre o parlamentar e o presidente da Conafer.

Após o início dos repasses milionários, Lucineide adquiriu uma frota de veículos de luxo incompatível com seus rendimentos, incluindo um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025. A Polícia Federal também a acusa de registrar veículos de terceiros em seu nome para proteger o patrimônio dos líderes da organização.

As acusações da polícia federal e a CPMI do INSS

O casal, Dogival e Lucineide, embora convocados para esclarecer os fatos, optou por permanecer em silêncio diante da Polícia Federal. As acusações formalizadas pela corporação contra eles incluem:

  • Corrupção ativa e passiva
  • Inserção de dados falsos em sistemas
  • Organização criminosa
  • Lavagem de dinheiro

Além do casal, outras 46 pessoas foram indiciadas por fraudes nos benefícios de aposentados e pensionistas.

A CPMI do INSS reforça as acusações, descrevendo Dogival e Lucineide como articuladores de desvios milionários por meio de uma rede criminosa de caráter “familiar e religioso”. A investigação financeira comprovou as complexas transações que movimentaram somas expressivas, evidenciando a escala da fraude.

Entidades de fachada e o rastro da fraude

Dias após a denúncia do Metrópoles, a placa de identificação da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, pertencente a Lucineide, foi removida. No mesmo endereço da igreja, dados da Receita Federal indicam a operação de uma suposta empresa ativa de Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer – outra instituição implicada nas fraudes –, levantando suspeitas de ser uma empresa fantasma. Após a retirada da fachada da igreja, o terreno baldio ao lado foi cercado por um alambrado. Este detalhe sublinha a rapidez na tentativa de ocultar os rastros da operação, revelando a complexidade do esquema investigado pela Polícia Federal.

Francisco Araújo

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