O dilema das nomeações políticas e o paradoxo de Cícero Lucena: a controvérsia que agita a Paraíba sobre nepotismo e mérito na gestão pública

O dilema das nomeações políticas e o paradoxo de Cícero Lucena: a controvérsia que agita a Paraíba sobre nepotismo e mérito na gestão pública

A crítica de Cícero Lucena ao governo Lucas Ribeiro sobre nomeações políticas e familiares levanta debate, mas seu histórico em João Pessoa contradiz o discurso do ex-prefeito

O ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), lançou duras críticas à gestão do governador Lucas Ribeiro (PP) no último dia 27, apontando uma preocupante priorização de quadros políticos em detrimento de perfis técnicos. No entanto, a veemência do seu discurso encontra um ponto de atrito em seu próprio histórico administrativo, marcado pela nomeação de familiares em postos-chave. Maurílio Júnior, em artigo jornalístico, destaca a incoerência entre a retórica atual e as práticas passadas de Lucena.

Lucena expressou forte descontentamento com a composição do governo estadual, questionando a meritocracia na escolha de secretários. Ele fez um paralelo com a equipe do ex-governador João Azevêdo (PSB), que seria composta majoritariamente por técnicos, enquanto a atual gestão optaria por indicações políticas.

O ex-prefeito de João Pessoa não poupou palavras ao comentar a nomeação de indivíduos cujo “currículo” se resumia a serem “filho de candidato a deputado”.

“Um governo que despreza a colaboração técnica e faz exclusivamente política. E o que é pior: troca cinco, seis cargos importantes do Estado e o currículo da pessoa é ser filho de candidato a deputado. Meu Deus do céu. Se eu fosse jovem, estaria triste. Mas também o próprio governador está herdando por ser filho de uma família política. É isso que nós queremos para a Paraíba? Um governo em que, para ser secretário, o critério não é técnico? Pode ser político também, não estou dizendo que não. Eu tive isso na prefeitura e, se chegar ao Estado, vou ter político também. Mas o político tem que ter qualidade técnica. Não é herança, minha gente”, declarou Cícero Lucena à Arapuan FM.

Lucena também diferenciou as gestões ao analisar a capacidade de decisão.

“João tinha uma qualidade mais técnica na sua equipe. Você vai discutir isso? João ouvia os técnicos, ouvia os políticos, mas tomava a decisão, certa ou errada. Ele não deixava ninguém tomar por ele. Agora você tem um governador que, para decidir as coisas, fica dependendo de tudo que vem para ele? Paciência, minha gente. Nós não estamos escolhendo alguém para cumprir uma missão simples”, complementou o ex-prefeito.

Apesar da contundência das observações, a própria trajetória política de Cícero Lucena é pontuada por práticas que espelham as que agora critica. Durante sua gestão como prefeito de João Pessoa, o emedebista nomeou sua filha, Janine Lucena, para a Secretaria de Saúde.

Outros exemplos incluem a indicação de sua cunhada, América de Castro, para a Secretaria de Educação, e de seu sobrinho, Beto Pirulito, que ocupa a Secretaria Executiva de Habitação.

Esses fatos levantam a necessidade de um cálculo cuidadoso por parte de Lucena ao fazer acusações, para evitar cair em contradições. A fonte Maurílio Júnior salienta que criticar ações que ele próprio já realizou, como no caso da Parceria Público-Privada (PPP) do saneamento da Cagepa — onde ele também privatizou estacionamentos e cemitérios na capital —, pode comprometer sua credibilidade perante a opinião pública.

A discussão impulsionada pelas falas de Cícero Lucena coloca em evidência o debate sobre critérios de nomeação em cargos públicos na Paraíba, confrontando a necessidade de expertise técnica com as dinâmicas da representação política e a percepção pública de coerência dos atores envolvidos.

Francisco Araújo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *