“Tenho nojo e ódio à ditadura!”. Doutor Ulysses falava pela sociedade.

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“Tenho nojo e ódio à ditadura!”. Doutor Ulysses falava pela sociedade.
“Tenho nojo e ódio à ditadura!”. Doutor Ulysses falava pela sociedade.

Quem melhor sintetizou o sentimento da sociedade brasileira, indefesa e atacada pela ditadura militar que perdurou por 21 anos, entre 1964 e 1985, foi o doutor Ulysses Guimarães, a figura emblemática que encantou-se no mar em meio a um acidente aéreo. “Tenho nojo e ódio à ditadura”, reagiu o ex-presidente da Câmara Federal e “Senhor Diretas” ao promulgar, em outubro de 1988, a Constituição-Cidadã, que anexou conquistas sociais, econômicas e culturais, mas, acima de tudo, institucionalizou o conceito de Cidadania na história do Brasil. O texto constitucional de 88 fundou o Brasil democrático, antítese do autoritarismo latente que foi imposto a poder de baionetas.

A evocação da retórica do doutor Ulysses vem a propósito das provocações do atual presidente da República, o capitão reformado Jair Bolsonaro, tendo como pano de fundo o golpe militar instaurado com o apoio de segmentos equivocados da sociedade civil, apavorados com a remota perspectiva de implantação do comunismo no Brasil. A Constituição de 88, se não fez todo o bem, evitou grandes males no País. A consolidação da democracia foi o ponto alto e era imperiosa por uma razão muito simples: a longa noite das trevas que se seguiu à quartelada de março de 64 mutilou o direito de ir e vir, sufocou a liberdade de expressão, fechou o Congresso, destituiu governantes ungidos pela voz rouca das ruas e normatizou a tortura, essa excrescência, essa vilania pela qual o doutor Ulysses tinha nojo e ódio.

Bolsonaro despreza as Comissões da Verdade que foram criadas no país para tomar depoimentos de vítimas das arbitrariedades do regime militar. Diz que constituem “balela”. Mas a parte da sociedade que aprendeu a conhecer, de verdade, quem é Bolsonaro, dele espera sempre o pior, já que o presidente não tem compromisso mínimo com princípios democráticos elementares, embora tenha se utilizado da democracia para chegar ao poder – tal qual Hitler, na Alemanha, ou Mussolini, na Itália. Ou Franco, na Espanha, Salazar, em Portugal, Pinochet, no Chile, Médici no Brasil. O que é preciso ser dito para evitar que prevaleçam como verídicas as sandices do presidente Jair Bolsonaro é que houve uma guerra no Brasil em 1964 pela tomada do poder, e que isto não bastou aos “vencedores” – por eles, os “vencidos” seriam esmagados inapelavelmente, apenas porque foram vencidos em ideais com que sonharam.

Não é o caso de negar excessos cometidos por “vencidos” da guerra forjada com o apoio e a intervenção dos Estados Unidos. Gente de esquerda pegou em armas, assaltou bancos, entrou em confrontos que resultaram na morte de policiais, inclusive, inocentes. Mas isto ocorreu porque as franquias democráticas haviam sido exterminadas no Brasil como ervas daninhas. E não há como comparar casos graves mas isolados perpetrados pelos esquerdistas e opositores do regime militar com as violências sancionadas pelos militares que se assenhorearam do poder e tinham à sua disposição, além dos Urutus e das balas de borracha para dispersar manifestações pela liberdade e democracia, instrumentos sádicos de tortura aperfeiçoados nos porões da ditadura por especialistas trazidos de fora, como um certo Dan Mitrione, americano treinado pela CIA na prática de atos de aviltamento humano e da mais absoluta e abjeta insanidade de que se tem notícia na história do mundo.

Todos os confrontos perpetrados no intercurso do golpe que eclodiu com a saída do coronel Olympio Mourão Filho, com suas tropas, de Juiz de Fora, para o Rio, numa aventura rocambolesca que envergonhou o próprio militar a ponto de fazê-lo dizer que se sentia “uma vaca fardada”, constituíram violações de direitos humanos que ficaram impunes pelo pacto de silêncio e covardia de setores da sociedade. No Brasil, ao contrário do que se deu na vizinha Argentina e em outros países, militares psicopatas torturadores não foram parar atrás das grades. Foram condecorados. Bolsonaro chegou tarde ao poder para dar vazão a seus instintos primitivos que combinam com essa fase negra da nossa história.

– A sociedade, no Brasil, é Rubens Paiva, não o coronel Brilhante Ustra – dizia o doutor Ulysses Guimarães. Ustra, que é um dos ‘mitos’ reverenciados por Bolsonaro nas fraquejadas do capitão-presidente da República, é a expressão do terror remanescente da longa noite das trevas. Rubens Paiva simboliza a antítese, formando ao lado dos que ousaram desafiar as baionetas e os trogloditas da Era das Trevas. O Brasil só será pacificado quando tudo for realmente passado a limpo. Nesse ponto, Bolsonaro – que era “assim” com os porões – pode colaborar de forma decisiva, desde que abandone o tom cínico e desrespeitoso com que se refere aos órfãos do talvez, às viúvas do quem sabe, no dizer do doutor Ulysses, reportando-se à fase trágica que se abateu sobre o Brasil.

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