Primeira indígena no Congresso fez mestrado nos Estados Unidos

Primeira deputada indígena da história do Brasil, Joênia Wapichana (Rede-Roraima) venceu também o Prêmio Direitos Humanos das Nações Unidas de 2018 – uma condecoração que já havia sido conferida a personalidades como Martin Luther King, Nelson Mandela, Jimmy Carter, MalalaYousafzai e Anistia Internacional. Desde 1982, quando Mário Juruna, pelo PDT do Rio de Janeiro, cacique do povo xavante, se elegeu deputado federal, nenhum indígena havia repetido a façanha. Joênia provém da terra indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, extremo norte do Brasil e foi a primeira indígena formada em Direito através da Universidade Federal de Roraima, além de ter cursado mestrado na Universidade do Arizona, Estados Unidos.

Em texto publicado na revista “Família Cristã”, o procurador regional da República e mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional Felício Pontes Jr. conta que com a invasão de fazendeiros de gado nas décadas de 70 e 80, o território de Roraima foi retalhado, acarretando o confinamento do seu povo em “ilhas” e a convivência no mesmo espaço com outros povos indígenas: Makuxi, Taurepang, Ingarikó e Patamona. A percepção de que essa injustiça deveria ser reparada fez com que Joênia migrasse para a capital, Boa Vista. Usou as mesmas armas dos brancos: a educação formal.

Quando do julgamento da Terra Indígena Raposa Serra do Sol no plenário do Supremo Tribunal Federal em 2008, Joênia também foi a primeira advogada indígena a usar a tribuna para fazer uma defesa implacável do direito ao território. Sagrou-se vencedora. Os fazendeiros foram retirados e o território foi demarcado em um polígono contínuo. “Faço meu trabalho por amor, porque meu povo e minha família precisam disso. Estou defendendo uma terra que é minha, para a qual pretendo voltar depois desse tempo na cidade”, disse, ao sair do STF. Com 44 anos, casada e mãe de dois filhos, Joênia fala a língua nativa dentro de casa “para que os filhos não esqueçam e sintam orgulho de ser indígenas”. Seus pais que vivem na aldeia não cansam de alertar que “tem muita gente lhe querendo mal em Brasília”, onde passará a maior parte dos próximos quatro anos.

O procurador Felício Pontes afirma que quase um milhão de indígenas que habitam o Brasil já podem comemorar a eleição de Joênia Wapichana, cuja decisão de concorrer não foi sua, mas foi coletiva, durante uma assembleia-geral dos povos indígenas. Frisa que outro acontecimento digno de registro nas eleições de 2018 foi a candidatura de Sônia Guajajara, pelo Partido Socialismo e Liberdade, a vice-presidente da República. “Embora não eleita, sua campanha desmistificou para muitos, sobretudo jovens universitários, o conceito de indígena. Foram ao todo 131 indígenas que concorreram a algum cargo público nas recentes eleições.

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