Uma história de virada de Mesa espetacular na Assembleia Legislativa

O impasse reinante no processo para escolha da futura Mesa da Assembleia Legislativa da Paraíba faz lembrar episódio de impacto verificado, em outras circunstâncias, em 1981, no primeiro mandato de Tarcísio Burity como governador “biônico”, denominação dada aos governantes escolhidos de forma indireta, pelo governo federal, então enfeixado nas mãos dos generais. Burity. Burity decidiu se envolver na eleição da Mesa, adotou o deputado estadual Assis Camelo como seu candidato “in pectoris” e chegou a promover uma “prévia” no Palácio da Redenção, com os integrantes do bloco governista, em que Camelo teve endosso para ser ungido.

As aparências iludiram o governador. O deputado estadual Fernando Milanez, já falecido, saiu do Palácio inconformado com a “imposição” do nome de Assis e juntou-se a deputados do chamado “Grupo da Várzea”, como Aécio Pereira e Joacil de Brito Pereira, para articularem uma reação ao édito palaciano. Nos bastidores havia insatisfação latente de deputados com a falta de prestígio junto ao governo Burity. Milanez avaliou que a dissidência do PDS só lograria êxito se atraísse votos da bancada estadual do PMDB e da bancada do PP, esta integrada por apenas três deputados – Atêncio Wanderley, Américo Maia e Edivaldo Motta. O PMDB era liderado por José Fernandes de Lima, remanescente do velho PSD, onde havia sido companheiro de militância de Milanez. Os dois – Fernandes e Milanez, passaram a tocar de ouvido e a costurar a virada de Mesa.

Um dos pontos acordados era a viabilização da Mesa eclética, com a participação de deputados oposicionistas em cargos estratégicos. Havia uma reivindicação mais importante e urgente colocada pelos oposicionistas – a quebra do então quórum constitucional vigente, que impossibilitava a formação de Comissões Parlamentares de Inquérito. Milanez comprometeu-se a convocar sessão de mudança do regimento em que retornaria o quórum de maioria simples para instalação de CPIs. Tudo isto animou a bancada oposicionista que superou divergências com expoentes do Grupo da Várzea dentro da filosofia maior de infligir uma derrota em grande estilo a Burity, que era chamado de antipolítico e de neófito. O ministro Abi-Ackel, numa visita que fez à Paraíba, comparou que Burity era um político “não convencional”, uma forma elegante de dizer que ele não era do ramo.

O processo caminhava para a homologação pacífica de Assis Camelo como presidente quando começaram a pipocar notinhas nos jornais “O Norte” e “Correio da Paraíba”, prevenindo para a possibilidade de reviravolta. Num primeiro momento, o Palácio e o próprio Assis desdenharam da eclosão de uma dissidência, até que os sinais foram se tornando mais evidentes e não puderam mais ser ignorados. Praticamente às vésperas da eleição, Burity pressentiu o desastre e tomou a frente do processo, chegando a oferecer a presidência a Américo Maia, no lugar de Assis. Américo recusou. O bloco de oposição era monolítico, não havia como ser quebrado ou partido ao meio. À distância, o senador Humberto Lucena e o ministro João Agripino Filho, bem como o deputado Antônio Mariz, faziam acenos encorajadores para dissidentes e conspiradores. Não deu outra. Numa sessão realizada na manhã do domingo, contados os votos, Milanez foi sacramentado presidente. Após a posse, a oposição dividiu o poder com ele. Burity sofreu uma das primeiras derrotas acachapantes no difícil relacionamento que manteve com a classe política paraibana.

Nonato Guedes