Reviravoltas na eleição de 2002 projetaram ascensão de Paulino

O historiador José Octávio de Arruda Mello, em ensaio sobre as nuances da eleição de 2002 ao governo da Paraíba, sustenta que a ascensão de Roberto Paulino como candidato do então PMDB no embate contra Cássio Cunha Lima (PSDB) deveu-se a reviravoltas como o apoio do PT, embalado nacionalmente com a candidatura a presidente de Luiz Inácio Lula da Silva, que derrotou José Serra. O resultado final não foi suficiente para a vitória de Paulino, mas este chegou a ir longe na disputa ao provocar o segundo turno. Na segunda quinzena de setembro daquele ano – enfatiza José Octávio – o candidato Cássio Cunha Lima ainda era favorito, mas dois fatores conjugavam-se para ameaçar a decisão no primeiro turno: o impulso petista consorciado com a ascensão nacional da candidatura Lula e o crescimento do próprio Paulino.

O páreo de 2002 refletiu desdobramento latente da crise que estourou no PMDB em 98, opondo o grupo Cunha Lima ao então governador José Maranhão, que culminou com o desembarque do “clã” campinense nas fileiras do PSDB. O ponto de discórdia foi a decisão de Maranhão de se candidatar à reeleição em 98, tendo como vice Roberto Paulino. Cássio vinha sendo preparado pelo pai, Ronaldo, para ser o candidato ao Palácio da Redenção e a revanche somente se materializou em 2002. Ex-prefeito de Guarabira, ex-deputado estadual e ex-deputado federal, Paulino surpreendeu os analistas políticos com a performance na disputa de 2002. Teve como candidato a vice o falecido deputado estadual Gervásio Bonavides Maia, que foi presidente da Assembleia Legislativa. O grande puxador de votos para a chapa no primeiro turno, porém, foi Maranhão, que vitoriou a uma das vagas de senador. “No geral, a eleição de 2002 não era simplesmente estadual, mas nacional, ou seja, o pleito paraibano casava-se com a opção presidencial”, argumenta José Octávio.

Desde o primeiro turno, Lula tornou-se majoritário na Paraíba. Ele alcançou 47.77% dos votos, cerca de 754.329 sufrágios contra 29.53% de José Serra, apoiado pelos Cunha Lima, e que obteve 466.346 votos. Na sequência foram votados a presidente na Paraíba Anthony Garotinho, Ciro Gomes, José Maria de Almeida e Rui Costa Pimenta. No primeiro turno, o Partido dos Trabalhadores lançou ao governo do Estado o deputado federal Avenzoar Arruda, que na Câmara fez críticas cerradas à atuação de Cássio Cunha Lima na superintendência da Sudene, insinuando que ele havia favorecido grupos empresariais de familiares e amigos com a concessão de incentivos fiscais liberados pela autarquia. O PT paraibano, representado por Adalberto Fulgêncio, Ricardo Coutinho e Avenzoar Arruda bateu forte no PSDB, considerado o grande inimigo petista e simbolizado, em termos locais, por Cássio.

A maioria de Roberto Paulino sobre Cássio em João Pessoa, no litoral, em Guarabira, no agreste, em Sousa, no sertão e no médio Paraíba reforçou consideravelmente a retaguarda peemedebista, criando as condições para o segundo turno. Na rodada decisiva, ocorreu a contraofensiva tucana e Paulino deixou-se abater por problemas pessoais, como um acidente automobilístico que vitimou sua mulher, Fátima. Não obstante, a campanha do segundo turno registrou sensível radicalização e chegou a ser comparada à de 1950, entre José Américo de Almeida e Argemiro de Figueiredo. Proclamados os números finais, os espíritos não se desarmaram. Na Paraíba, observou José Octávio, não houve transição governamental – às vésperas da posse de Cássio, o governador Paulino ainda pleiteava a impugnação da diplomação do candidato vitorioso, sem êxito. Neste ano, Paulino e Cássio vão se enfrentar novamente, agora ao Senado, o primeiro concorrendo novamente pelo PMDB e o segundo alojado, ainda, no PSDB.

Nonato Guedes