Perguntas que não foram respondidas por quem devia, no ensaio pré-eleitoral

Alguém aí sabe responder, com exatidão, o que levou o governador Ricardo Coutinho (PSB) a permanecer até o último dia no exercício do mandato, atalhando a perspectiva de uma candidatura favorita para vaga ao Senado nas eleições de outubro? Não houve ninguém que arriscasse dar a resposta segura, definitiva. Do governador não se esperava que explicasse muito – políticos, em regra, não gostam de dar explicações sobre estratégias que perseguem, até como forma de evitar municiar os adversários. Dirão que Ricardo, em todo caso, falou a respeito. Sim, é fato. Falou que só confia nele para levar adiante um projeto administrativo que o socialista considera exitoso e que, pela sua bola de cristal, terá o condão de catapultar à sua cadeira o pré-candidato João Azevedo, jejuno em política.

Deduz-se, do blá-blá-blá de Ricardo, que nem de longe ele confiaria na vice-governadora Lígia Feliciano (PDT) na missão de tornar realidade essa oitava maravilha do mundo que é a Paraíba D.C., ou seja, depois de Coutinho, quando tapetes de cores e brilhos distintos vão se fundir para emoldurar a península recém-descoberta no Extremo Oriental das Américas. Mas, terá sido isso mesmo o “leit-motiv” da desistência do governador em disputar o Senado? Adversários apostam que não e sustentam que tem caroço debaixo desse angu. É exercício de “achismo”, sempre penoso, pela iminência de bater contra rochas onde a verdade está ancorada – e…destruir-se a verdade.

Ricardo, em tese, teria ene fatores conjugados conspirando a seu favor: o Estado está equilibrado financeiramente, as insatisfações no funcionalismo são pontuais ou específicas, há recursos próprios para bancar obras e investimentos, compensando a lacuna proveniente de eventual má vontade do governo do presidente Temer em acudir um Estado cujo governante ficou ao lado da mandatária decaída, a Sra. Dilma Rousseff, do PT, e, enfim, o governador em si é aprovado na média. Daí a tornar-se Super Homem e transferir votos para o neófito João Azevedo, é preciso percorrer alguma distância. Político de características personalistas, Ricardo tem sido excelente até agora quando se trata de carrear sufrágios ou simpatias em proveito próprio. Na hora de efetuar a transfusão para figuras aliadas, é sempre uma complicação. Assim foi com Estelizabel Bezerra e Cida Ramos, retiradas do bolso do colete do governador para disputar a prefeitura de João Pessoa e que não avançaram do ponto de vista da densidade eleitoral, ficando a ver navios no porto do primeiro turno, enquanto os ungidos nas urnas zarpavam em direção a um segundo turno, pelo menos em 2012, já que em 2016 não deu tempo nem sequer sonhar com uma etapa decisiva, onde tudo pode acontecer, conforme a lenda.

Deixemos Ricardo com suas elucubrações e estratégias e viremos o disco. O que levou Luciano Cartaxo, prefeito reeleito de João Pessoa, com uma administração bem cotada em setores médios da população, a desistir de concorrer ao governo do Estado depois de ter percorrido municípios ensaiando a pretensa postulação? Os analistas políticos vinham colecionando fichas que indicavam Luciano como favorito no ranking eleitoral, mas eis que veio a reviravolta. Luciano não quis mais encarar o prélio, alegando agastamento com a demora das oposições em adotá-lo. E saca do bolso o nome do irmão gêmeo, Lucélio, para substituí-lo na corrida, como se acreditasse piamente que voto se transmite por osmose. Seja como for, o nome dele é Lucélio, não é Luciano. Por último, dá-se que o prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues, que se identificou como alternativa ou contraponto a Cartaxo dentro do bloco oposicionista decidiu imitá-lo, no gesto da desistência. Não deu maiores explicações, nem parece que elas tenham sido pedidas pela imprensa com alguma insistência. No frigir dos ovos, ainda imitando Luciano, Romero disponibiliza o nome da mulher, doutora Micheline Rodrigues, para vice de Lucélio. Pronto. A chapa familiar está formada. Mas, será que já não estava muito bem antes, lá atrás, antes de Romero abrir o São João e Lucélio abalar-se para Cracóvia, na Polônia?

Tem muito mistério a ser desvendado na política paraibana, e quase nenhum Sherlock Holmes tupiniquim disponível para tornar elementar a Watson as causas que provocaram tanta desistência no cenário da província. Andei sondando “experts” mais autorizados ou abalizados a fazer a exegese dessa enxurrada de “nãos” ao voto na Paraíba. O que recolhi foi a versão de que no plano nacional, também, a conjuntura é atípica. Quem é favorito, como Lula, não pode ser candidato porque está preso. E quem devia estar inelegível, como Bolsonaro, está solto e à garga, pontuando bem nas pesquisas, polarizando ora com Ciro Gomes, ora com Marina Silva. Se vale como consolo, não há nada de tão atípico na Paraíba que não esteja ocorrendo no Brasil. Por aí, não evoluímos a nada. Mas, a propósito, teremos mesmo a chance de ganhar a Copa do Mundo tocando um pagode russo?

Nonato Guedes