Clerot negava ser invasor de áreas eleitorais e dizia que paraibano não vende voto

Falando ao programa “Entrevista 90”, da Rede Paraíba de Televisão, em 1990, quando disputou pela primeira vez o mandato de deputado federal, o ex-ministro do STM José Luiz Clerot, que será sepultado hoje em Brasília, refutou a pecha de “invasor” de áreas e as insinuações de que estava abusando do poder econômico na disputa. “Tenho, em mim, a convicção de que o paraibano não vende o seu voto”, desabafou, acrescentando que as despesas de campanha eram naturais, até mesmo inevitáveis, envolvendo transporte, combustível, etc. “Não conheço ninguém que tenha tido a petulância ou a capacidade de propor a compra de votos. O paraibano, tenho para mim, não vende votos, e esta eleição será feita assim”, expressou ele, num depoimento aos jornalistas Chico Maria e Nonato Guedes.

Clerot afirmou que estava obstinado em conquistar um mandato para representar o Estado, justificando que nunca se desligou da sua terra. Benemérito da Maçonaria, ele confessou acreditar que tivesse votos de maçons, pelas propostas defendidas como candidato pelo PMDB. Disse ter escolhido o PMDB para sair candidato em face da história da agremiação. “O PMDB é o estuário de toda a luta democrática, de toda a batalha pela redemocratização. E eu não me sentiria tão à vontade num partido quanto me sinto no PMDB”. Clerot, que faleceu ontem aos 82 anos na Capital federal e tinha naturalidade em Mamanguape, avaliava o abuso do poder econômico com o proporcional à miséria em que o povo se encontrava mergulhado. “O sofrimento do povo leva essa gente, nos períodos eleitorais, a apelar, a procurar as lideranças também”, definiu. Admitia que isto poderia ensejar tentativas de compra de votos, mas ponderava: “O importante é que essa influência não se registre”. E prevenia eleitores interessados em conseguir tijolos, telhas ou obter outros favores para que não o procurassem, “porque eu não tenho dinheiro”. Além do mais, considerava ser preciso sanear o meio político e fazer eleições ditadas apenas pela consciência do eleitorado.

Indagado se tinha ligações com a empreiteira “Camargo Correia”, Clerot respondeu que não conhecia o proprietário Sebastião Camargo Corrêa a não ser através do nome. “Eu sei que políticos tradicionais da Paraíba já tiveram ligações profundas com essas empresas. Eu não tenho ligação com empresa nenhuma, nem com empreiteiro. A minha eleição, a minha campanha, é tocada com os meus recursos, com aquilo que amealhei ao longo da minha vida de advogado, que foi vasta e sobretudo marcada pela lisura profissional”, comentou. Sua candidatura a deputado, conforme ele, decorreu da vontade de prestigiar serviço efetivo à população da Paraíba, “que neste momento está tão sacudido pela miséria e pela incompetência de tantos quantos o governaram ao longo dos últimos anos”. Clerot, ao analisar uma suposta impugnação da candidatura de Wilson Braga ao governo por acusação de corrupção, foi curto e grosso: “Na minha opinião, candidato se impugna nas urnas e quem impugna é o eleitor através do voto livre e consciente”.

O ex-deputado se posicionou contrário ao chamado Plano Collor por considera-lo recessivo. Prevenia sobre inconstitucionalidades e ilegalidades que, de acordo com ele, já estavam evidentes nas primeiras medidas provisórias encaminhadas ao Congresso Nacional para sua aprovação. “Acho que o Congresso foi silente e até conivente com certas inconstitucionalidades e ilegalidades. E é por isso que o povo, de um modo geral, incluindo a classe média, está pagando um preço caro pelo insucesso de parte do Plano do presidente Collor de Melo”. Clerot, que era tido como ilustre desconhecido na Paraíba, elencou benefícios carreados para o Estado, revelou que já havia trazido obras para o Estado, a exemplo de recursos para o hospital de Mangabeira e também recursos para Queimadas e Boqueirão, bem como outros municípios. “Não considero isto invasão de área, mas um benefício que se presta à coletividade”.

Clerot tinha amizades influentes no círculo de poder em Brasília, construídas antes mesmo de ser deputado federal. Uma dessas amizades era com o ex-presidente e senador José Sarney. Quando estava na Paraíba em plena campanha, ele foi acionado por Sarney para invalidar ação movida contra ele por ter transferido o domicílio eleitoral do Maranhão para o Amapá a fim de se eleger senador. Clerot deu as coordenadas a escritório de advocacia em Brasília e manteve contato permanente com Sarney, que logrou vencer os adversários autores de representação contra sua candidatura no Amapá e ainda por cima elegeu-se folgadamente como senador. No extinto PMDB paraibano, Clerot era respeitado por líderes políticos a exemplo do senador Humberto Lucena, que por longo tempo presidiu o diretório estadual do partido.

Nonato Guedes