Chegou a hora da verdade: Lula transfere votos para Haddad?

A mídia sulista dá conta de que o Partido dos Trabalhadores respira, aliviado, com o desfecho do julgamento da presumível candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva a presidente da República. Desde o começo o partido sabia que a candidatura era natimorta nos termos da Lei da Ficha Limpa, que foi sancionada pelo próprio Lula. Afinal, Lula está preso desde abril na Polícia Federal em Curitiba, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A liberação da sua candidatura seria uma afronta ao Judiciário brasileiro, que se desmoralizaria para continuar cumprindo o que lhe cabe no estrito limite da Lei.

No entanto, como fazia parte do jogo manter a pantomima de que Lula era candidato, o PT perdeu tempo demais na popularização do nome de Fernando Haddad, o “poste” escolhido a dedo por Lula para ocupar a função de candidato e tentar sensibilizar o eleitorado não com propostas mas com a vitimização da figura do ex-presidente da República. Em algumas regiões do Nordeste, bolsões que o PT considera cativos devido às origens de Lula e a obras como a transposição de águas do rio São Francisco, Haddad é conhecido por eleitores anônimos como “Andrade”. A circunstância de ser “o candidato do Lula” pode favorecê-lo, em tese, a partir de agora, porque, então, o “Andrade” não vinha conseguindo decolar nas pesquisas de intenção de voto.

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral, por maioria de votos, ontem, teve o condão de virar a página de uma farsa que vinha sendo alimentada não só por petistas como por setores da mídia e grupos intelectuais convencidos de que há uma orquestração para dizimar o PT e a liderança de Lula. Mas até as paredes da cela da PF em Curitiba onde Lula desfruta de um exílio generoso sabiam que estava em curso apenas uma orquestração para forçar a todo custo o registro de Lula e acicatar os brios da Justiça, que o PT despreza olimpicamente. No afã de levar adiante a orquestração, o PT acionou até mesmo uma Comissão da ONU para que interferisse na soberania do Brasil. Foi o que se deu com a recomendação estapafúrdia de que o TSE concedesse registro à candidatura de Lula e, mais ainda, que determinasse a soltura do presidiário.

Na sessão especial do TSE, ontem, o ministro Luís Roberto Barroso derrubou a defesa ”fake” dos advogados do ex-presidente, que insistiam em citar a recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Barroso informou, judiciosamente, ao colegiado, que a recomendação do tal Comitê foi proferida por apenas dois dos dezoito membros e que o Estado brasileiro não foi ouvido a respeito. Por outro lado, a advogada de Lula da Silva no TSE provocou a Corte ao citar que barrar a candidatura do petista seria como o governo da Coréia do Norte dizer que está tudo bem com suas leis. A intervenção desastrosa foi encarada como um desrespeito à Lei da Ficha Limpa, que o próprio Lula sancionou.

Claro que ainda vai haver turbulência – só que agora o PT terá que medir as consequências de qualquer agitação que intentar promover, porque há um desafio maior – o de transferir votos de Lula para que o ”Andrade” ou “Haddad” seja eleito. Isto quer dizer mais ou menos o seguinte: acabou a brincadeira, agora é para valer. O PT tem chapa definida para o páreo presidencial, composta por Fernando Haddad e Manuela D’Avila. O resto é conversa pra boi dormir.

Nonato Guedes