Bolsonaro, Ciro, Marina, Alckmin: na mira da “arapongagem”

Os principais candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano foram monitorados de perto pela ditadura militar, conforme reportagem da revista “Istoé” que teve acesso a documentos hoje guardados no acervo da Biblioteca Nacional. O monitoramento dos agentes do SNI, Serviço Nacional de Informações, continuou existindo após a redemocratização, no governo José Sarney. As revelações chegam a ser truncadas ou meramente curiosas. Jair Bolsonaro, do PSL, é descrito nesses papéis como um elemento agitador cujas atitudes e propósitos poderiam servir aos interesses de partidos comunistas. Ciro Gomes, conforme os “arapongas”, integrava chapa de direita e defendia que estudantes não discutissem em assembleias temas político-ideológicos. Marina Silva “é uma comunista revolucionária”. E Geraldo Alckmin “não está ligado a atividades subversivas”.

As exceções, entre os presidenciáveis monitorados pelos agentes do SNI, são Guilherme Boulos, do PSOL, Vera Lúcia, do PSTU, e João Goulart Filho, do PPL. Os dois primeiros eram crianças. Sobre o terceiro, há apenas rápidas menções em arquivos sobre seu pai, o ex-presidente João Goulart, deposto pelo regime militar de 1964. Ao avaliar as chances eleitorais de candidatos do Acre ligados à esquerda nas eleições de 1989, o SNI aponta que “Maria Osmarina Silva de Souza”, que ficaria conhecida mais tarde como Marina Silva, é “possuidora de elevado potencial eleitoral”. Segundo o dossiê, Marina era militante da Central Única de Trabalhadores, participava, há muito tempo, do movimento estudantil, e tinha participação marcante nas lutas dos trabalhadores.

Bolsonaro chamou a atenção pelo fato de que, como ex-capitão do Exército, publicou artigo na imprensa reclamando que os salários dos militares estavam baixos. No artigo, Bolsonaro tecia críticas ao Exército por sua política salarial – e o texto levou-o a ser preso por 15 dias, acusado de insubordinação. Hoje, Bolsonaro é inimigo declarado do comunismo, Um documento de 25 de setembro de 79, conforme a matéria da “Istoé”, menciona Ciro Gomes como um dos integrantes da chapa “Maioria”, liderada por Marcos Martins Paulino. Ela era classificada por estudantes como “uma chapa de direita”. Ciro era o candidato a vice nacional. O SNI diz que seu grupo iria lutar pela democracia, “ao contrário daqueles que a defendem como meio de chegar ao poder para, depois transformá-la em totalitarismo”. A respeito das declarações de Bolsonaro sobre insatisfação salarial, um boletim do SNI de 89 dizia que os comitês central e regional do PCB e PCdoB instruíram seus militantes a explorar ao máximo o descontentamento dos militares, criado a partir da entrevista “do nominado”.

Já Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores à sucessão presidencial, começou a ser observado pelos militares ainda como integrante do movimento estudantil, quando presidia o Centro Acadêmico 11 de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. A espionagem sobre Haddad referia-se à sua participação no Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte, na época ainda em fase de elaboração por conta do movimento das Diretas-Já. O professor Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lembrou em depoimento que o SNI de fato bisbilhotava praticamente todas as pessoas que tinham alguma atividade durante os anos de chumbo e mesmo depois, no início do processo de redemocratização. “A questão parece ser a finalidade desses relatórios, que muitas vezes não fica clara”, emendou o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, ex-integrante da Comissão Nacional da Verdade.

Nonato Guedes