Nunca houve um embaixador do Brasil como Assis Chateaubriand

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Nunca houve um embaixador do Brasil como Assis Chateaubriand
Nunca houve um embaixador do Brasil como Assis Chateaubriand

“Desejo que os brasileiros saibam que não foi o governo quem me convidou para a missão que vou ter em Londres, na cabeça do Império. Fui eu quem, desde 1953, admitindo a hipótese de o governador Juscelino Kubitscheck vir a ser o presidente da República, lhe pedi que me reservasse a embaixada de Londres, caso pudesse merecer a confiança para exercê-la. Ele disse que sim, e que tão logo o embaixador Souza Leão se aposentasse, faria o expediente necessário junto ao Foreign Office para saber se eu era ali persona grata, a fim de ser nomeado pelo governo federal”. Assim, o jornalista paraibano Assis Chateaubriand, dono de um império de comunicação – os Diários e Emissoras Associados, tratado em livro por Fernando Morais como “O Rei do Brasil” começava um artigo publicado em seus jornais e enviado a Londres pelo embaixador britânico Geoffrey Harrison, engrossando o dossiê que se avolumava no Foreign Office sobre a nomeação do novo embaixador brasileiro na Inglaterra.

Não se sabe se para alívio ou desespero dos britânicos, em setembro de 1957 Chateaubriand estava finalmente em condições de assumir a embaixada brasileira em Londres. Por fim, conforme os biógrafos, chegou o dia 22 de novembro, data marcada para a tão esperada cerimônia. A excentricidade de Chateaubriand já havia chegado a todas as redações londrinas (logo ao chegar ele dera uma entrevista à BBC e, entre outras revelações extravagantes, repetira a história de que seu tataravô canibal havia comido um bispo português), o que fez com que um batalhão de fotógrafos se postasse à porta da residência do embaixador para registrar sua saída em direção ao palácio”. Numa hora em que se trata, no Brasil, da nomeação de Eduardo Bolsonaro, o filho do presidente Jair Bolsonaro, para embaixador em Washington, com a credencial de saber fritar hambúrguer, percebe-se que Chateaubriand tinha, pelo menos, a vantagem de divertir a Corte do Reino Unido.

A audiência de entrega de credenciais de Chatô acabou durando o dobro dos oito minutos rigorosamente previstos pelo protocolo. Na sala contígua ao salão em que a rainha e Chateaubriand se encontravam, os funcionários e emissários da embaixada brasileira que acompanhavam o jornalista se espantaram quando ouviram risadas da discretíssima rainha da Inglaterra. Ela se encantava ao ouvir aquele homenzinho, em um inglês tosco, relembrar que não tinha tido a oportunidade de apertar a sua mão na coroação e que estava ali não como embaixador, “mas como um repórter credenciado junto à Corte de St. James”. A risada tinha sido provocada por uma declaração surpreendente de Chatô: “Juscelino me pediu que transmitisse uma mensagem à soberana do Império Britânico: se Vossa Majestade não agendar imediatamente uma viagem para conhecer de perto seus 50 milhões de súditos brasileiros, ele renuncia a seu mandato de presidente do Brasil”. Chateaubriand inventou na hora a piada. A conclusão é a de que, mesmo tendo se obstinado, por capricho, a ser embaixador, o paraibano tinha “fair-play” suficiente para ser acolhido no Reino Unido ainda que à custa de saborosas risadas diante do festival de gafes e excentricidades cometidas.

Assis Chateaubriand passou três anos como embaixador do Brasil na Inglaterra, de 1957 a 1960, dividindo seu tempo entre Londres e o eixo Rio-São Paulo. Coração, mente e umbigo estavam voltados para o Brasil, onde prosperava o seu império. Fernando Morais conta que os diplomatas do Foreign Office “gelaram” quando começou a circular a notícia da provável nomeação de Chateaubriand. Geoffrey Harrison chegou a enviar telegrama a Londres dizendo que “obviamente não é a pessoa mais indicada para ser o embaixador brasileiro” lá, e que havia sérias objeções quanto ao fato de que um aventureiro do seu tipo acabasse sendo indicado como gratificação a seus caprichos pessoais e devido a compromissos assumidos pelo presidente Kubitscheck. Consta que Juscelino havia insinuado, durante um jantar, com um sorriso irônico nos lábios, que Chjateaubriand talvez não conseguisse ficar mais que três meses no posto.

Fato curioso, uma indicação por um período tão curto certamente iria significar desprezo pela Corte de Saint James, tal como alertado por emissários do regime britânico. A impressão dominante entre os ingleses era a de que Chatô estava mais interessado em aparecer e obter publicidade pessoal para si mesmo do que para o Brasil. Intimado a dar uma explicação para as razões insistentes de Chateeaubriand em querer ser embaixador, Harrison alegou, em telegrama confidencial: “Suspeito que seu fracasso em ser recebido pela rainha à época da coroação parra ofertar um colar para o qual arrecadara fundos tornou-se uma obsessão. Um dos objetivos declarados em sua vida é o de ser recebido, de qualquer maneira, por Sua Majestade”. Foi recebido. Chatô era Chatô, independente do que aprontou. Quanto a Eduardo Bolsonaro, vale repetir, sabe-se apenas que era exímio na arte de fritar hambúrguer na temporada que passou nos Estados Unidos. Pequena, mas sutil diferença.

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