Manifestações da direita no país desmoralizam o “anarquista espanhol”

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Pesquisa: brasileiros identificam-se majoritariamente com a Direita
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São, no mínimo, incomuns, as manifestações de rua convocadas para este domingo em diferentes lugares do Brasil a pretexto de apoiar pautas importantes para a sociedade como a defesa da reforma da Previdência, o pacote anticrime que o ministro Sérgio Moro encaminhou ao Congresso e outros penduricalhos.. O CEO Eduardo Platon, do movimento Avante, Brasil, nega que as manifestações venham a ter caráter explosivo, com críticas virulentas ao Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal e à Imprensa e, no reverso da medalha, de apoiamento incondicional ao governo do presidente Jair Bolsonaro. O capitão reformado chegou a cogitar a hipótese de comparecer a um dos eventos mas depois desistiu. Mesmo assim, não debelou a impressão que se tem de que o Planalto deseja tocar fogo no circo, fustigando segmentos que tentam pôr freio a atos absurdos e antidemocráticos do governo empossado em janeiro.

Se não pode ser chamado oficialmente de “patrocinador” das manifestações, o governo federal pode ser chamado de conivente dado o tom de declarações do presidente Jair Bolsonaro atacando instituições e chegando mesmo a dizer que o Brasil está ingovernável nas condições atuais de temperatura e de pressão. Suspeita-se em círculos bem-informados que as manifestações convocadas, principalmente, através de redes sociais, sejam uma tentativa de represália às manifestações de protesto contra o governo, realizadas no último dia 15, tendo como bandeira principal a crítica ao corte de recursos no repasse para universidades federais. Nos atos deste domingo pode acontecer tudo, inclusive, nada. Uma primeira consequência já pode ser divisada: a desmoralização da celebrizada figura do anarquista espanhol que costuma aparecer em charges e caricaturas proferindo o bordão: “Ésgobierno? Soy contra”. Afinal, a direita brasileira quer dar uma demonstração de apoio e solidariedade a Bolsonaro, caracterizando, assim, a manifestação “a favor”.

Nada muito estranho num governo que tenta parecer que é “o certo”, em contraposição à esquerda, detonando ações a golpes de pressa e sem dispor do equipamento intelectual mediano para produzir argumentos sólidos que consigam o efeito de atrair adesões de segmentos da massa disforme que circula nas ruas. O que preocupa os setores conscientes da sociedade é a circunstância de que Bolsonaro pode estar mexendo num vespeiro, incentivando uma divisão crescente da sociedade, como se estivesse ameaçado por um terceiro turno da disputa presidencial travada em 2018, na qual o capitão bateu o professor Fernando Haddad, lançado pelo PT para substituir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, impedido por estar preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Bolsonaro desenvolveu a psicose de que a esquerda está por trás de mobilizações destinadas a desgastar o seu governo. Monta cenários de guerra, de batalhas campais ou de guerrilhas nas ruas, para tirar a prova dos noves e deixar evidente que a sua “turma” é quem governa melhor, não cabendo saudosismo da Era PT.

Como não é acostumado ao exercício da autocrítica nem logra avançar no diálogo com representantes da sociedade, devido ao seu próprio estilo iracundo, o presidente Jair Bolsonaro tenta se sustentar na viga mestra da mobilização – a rua. Convém advertir, todavia, que o ardiloso artifício pode vir a se constituir em faca de dois gumes, apunhalando o ralo cacife de que a gestão bolsonarista ainda dispõe nas pesquisas de opinião pública. Na última vez em que um presidente da República convocou manifestantes para irem às ruas apoiá-lo, o tiro saiu pela culatra. Os manifestantes saíram de preto, deixando implícito o recado de insatisfação com o status que estava em vigor. Foi no curto governo de Fernando Collor de Mello, ex-caçador de marajás das Alagoas, que acabou entrando para a História como o primeiro presidente da República a ser alvo de impeachment. O efeito contrário da estratégia posta em prática fundiu a cabeça de Collor ainda hoje. É aquela coisa: tinha tudo para dar certo. E se não deu, o que terá acontecido?

O que aconteceu foi que o governo Collor perdeu ostensivamente o apoio popular e, com isso, passou a sangrar em termos de popularidade e de apoio para quaisquer medidas que inventasse de tomar. Houve, aí, um erro de cálculo do deslumbrado mandatário. Com Jair Bolsonaro, já ocorre de ele estar amargando queda nos índices de aprovação, agravada pelas tensões que o governo tem uma capacidade incrível de fabricar a cada semana. São sinais emitidos pela voz rouca das ruas, suficientes o bastante para levar qualquer presidente da República mais consciente a mudar de rumo, ou então, ter a delicadeza de renunciar, por não saber governar. Falta alguém, no entorno do Palácio do Planalto, com coragem suficiente para dizer a Bolsonaro que sua estratégia é kamikaze quando insiste em apagar fogo com gasolina. Por ausência de um murro na mesa, o governo pode cair sem nenhum rasgo de resistência.

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