Lira se despede do Senado deixando rastro de uma atuação meritória

O senador Raimundo Lira subiu à tribuna do Senado pela última vez, na tarde de ontem. Foi a sua despedida de uma atuação profícua, meritória durante dois mandatos- de 1987 a 95 e de 2014 a 2018. Desta feita, foi líder do MDB mas ganhou notoriedade nacional como presidente da Comissão Processante do Impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em que procurou agir como um magistrado, assegurando amplo e irrestrito direito de defesa às partes. Seu comportamento motivou elogios de petistas e até de adversários políticos, mas refletiu o perfil de um empresário que sempre foi vocacionado para a política.

Nesta segunda vez em que ocupa o Senado, Lira foi alçado à titularidade com a renúncia de Vital do Rêgo, por sua vez nomeado para compor os quadros de ministro do Tribunal de Contas da União, onde tem se destacado pela competência e pela dedicação à abordagem das questões que lhe chegam às mãos. Na primeira vez, Lira causou impacto no cenário político nacional. Era neófito em política – sua atuação era restrita a bastidores de campanhas e de forma limitada. Entrou no páreo, em 1986, como azarão – teria a missão de desbancar um político imbatível até então, o ex-governador Wilson Braga. Nas projeções da mídia e em pesquisas informais, Braga aparecia como franco favorito. Parecia estar eleito por antecipação, sem precisar fazer muito esforço.
Assim parecia, mas não era a realidade, afinal desenhada. Fazendo dobradinha com o falecido senador Humberto Lucena, que abriu mão da candidatura ao governo para Tarcísio Burity, afinal vitorioso, Raimundo Lira revelou-se um candidato metódico e disciplinado, que junto com um pequeno mas valoroso staff em que realçava a figura de sua mulher e grande companheira Gitana, reverteu pacientemente o jogo ou as projeções propagandísticas. Entre os fanáticos eleitores braguistas não se acreditava na hipótese de reviravolta. O raciocínio era o de que já estava tudo definido por antecipação e Lira estava cumprindo apenas um papel decorativo.

Ledo engano. Lira obstinou-se em ganhar a vaga de senador no voto e, ao final da contagem das urnas, saiu abraçado pela Paraíba com Tarcísio Burity e Humberto Lucena retribuindo a manifestação popular de reconhecimento. Feito senador, não demorou muito para se familiarizar com os corredores e o plenário da Casa, muito menos com a estrutura de funcionamento da chamada Casa Alta do Congresso Nacional. Nos bastidores atuou como um gigante no encaminhamento dos pleitos de interesse do Estado junto a ministérios, a presidentes de República, a agências de desenvolvimento nacional e internacional. Na tribuna, pronunciava-se acerca de questões candentes e relevantes, muitas delas relacionadas ao Nordeste. O talento político fê-lo expoente de Comissões da magnitude da Comissão de Assuntos Econômicos, por cujo crivo passava a aprovação de autorização de empréstimos a Estados e municípios. Lira foi adquirindo, naturalmente, cacife para voos maiores, como o de candidatar-se ao governo da Paraíba. A nebulosidade da conjuntura nacional, com o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, alterou rotas e planos em todos os Estados, a Paraíba incluída. Lira voltou às suas atividades empresariais sem nunca perder de vista a sensibilidade política. Voltou nesta legislatura em alto estilo, demonstrando que é talhado para a missão parlamentar. Poderia ter sido candidato à reeleição –avaliou que não lhe conviria. Sai consagrado. A Paraíba lhe deve muito.

 

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