Itamar Franco, o “mercurial”, foi embaixador do Brasil na Itália

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Itamar Franco, o “mercurial”, foi embaixador do Brasil na Itália
Itamar Franco, o “mercurial”, foi embaixador do Brasil na Itália

No livro “Os Segredos dos Presidentes”, Geneton Moraes Neto perfila Itamar Augusto Cautiero Franco, que sucedeu a Fernando Collor de Melo quando do impeachment deste em 1992 e aborda a personalidade intrigante daquele homem público, já falecido. Diz que os vocábulos estocados nos dicionários da língua portuguesa não são suficientes para adjetivar a personalidade de Itamar, que foi governador de Minas Gerais, senador e prefeito de Juiz de Fora. Ele foi chamado de temperamental, imprevisível, surpreendente, indecifrável, enigmático. Um adjetivo, contudo, ficou colado ao nome de Itamar Franco quase como se fosse outro sobrenome: “mercurial”. O problema, diz Geneton, é que a palavra não existe nos dicionários – pelo menos não no sentido usado pelos cronistas políticos para se referir ao ex-presidente. Em dicionários de inglês, “mercurial” é assim definido: “sujeito a alterações bruscas e imprevisíveis, que tem comportamento errático, temperamental”. Em bom português: “mercurial” tem a ver com sujeitos de ‘pavio curto’.

Itamar, nas palavras de Geneton, deu uma inconfundível contribuição capilar à iconografia política brasileira, o célebre topete, alegria dos cartunistas. Ficou famoso, também, por um momento constrangedor – a modelo Lílian Ramos foi fotografada ao lado do presidente da República numa pose indiscreta, sem calcinha, em pleno camarote no carnaval do Rio de Janeiro. Itamar, a respeito, explicou indagando: “Se aquela modelo entrou no camarote, pergunto: eu poderia pôr um espelho embaixo para verificar se a pessoa estava nua? Não tinha jeito. Não podia fazer”. Lílian Ramos havia desfilado no Sambódromo e, em seguida, posou ao lado do presidente vestindo apenas uma camiseta curta sobre o corpo nu – os flagrantes, registrados pelos fotógrafos, postados abaixo do camarote, correram o mundo nos dias seguintes. Tempos depois, logo depois de ganhar fome instantânea, em 1995 Lílian Ramos passou a viver justamente em Roma. E foi para Roma que Itamar se mandou, designado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como embaixador do Brasil na Itália. Uma suprema ironia, ou coincidência.

A Geneton, Itamar contou que foi o primeiro governador de Estado a fazer a campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. “Logo que assumi o governo, nós o lançamos, em Ouro Preto. Nem candidato ele era. Depois, ao longo do meu mandato de governador, defendi a candidatura do já presidente Lula, junto com José Dirceu, a quem quero muito bem. Fui igualmente o único governador que esteve presente ao último comício de Lula, em São Bernardo do Campo, quando ele se debulhou em lágrimas. Também emocionado, deixei as lágrimas caírem, debaixo da chuva. Não sei se o presidente Lula se recorda, mas ele chegou perto de mim e disse: “Itamar, o que é que você quer?”. Resolveu me mandar para a embaixada do Brasil na Itália. Pela afetividade, por ligações familiares lá, aceitei, mas com receio exatamente do problema que já tinha acontecido” (referência ao fato de Lílian Ramos ter ido viver justamente em Roma). Fiquei bastante preocupado”.

No final, deu tudo certo. Apesar do estilo “mercurial” do topetudo Itamar, o que passava a impressão de que ele não tinha dotes para a diplomacia, ele defendeu relativamente bem as cores do Brasil na Itália. Quanto a Lílian Ramos, escafedeu-se em Roma, deslumbrada com o seu corpo e com o fato de ter causado uma “saia justa” a um presidente da República, o que a introduziu nos compêndios da História. Esses episódios estão sendo relatados a propósito da polêmica indicação do deputado Eduardo Bolsonaro para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Ressalve-se que nem de longe há semelhanças entre Itamar e o rapaz – só a circunstância de serem agraciados com embaixadas. Itamar era um político sério, austero, que acabou legando ao Brasil, de forma surpreendente, um Plano de Estabilização da Economia – o Real, passaporte para a eleição do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. O Real completou há poucos dias 30 anos e depoimentos históricos convergiram para a sua importância no contexto da estabilidade política brasileira.

Para resumir a ópera, convém lembrar que, quando presidente da República, Itamar Franco foi o mentor da volta do fusquinha ao mercado automobilístico brasileiro. E tinha uma razão peculiar para tanto: ele namorava Lisle Lucena, a filha do senador paraibano Humberto Lucena, que foi presidente do Congresso Nacional por duas vezes. E Lisle, que foi tratada em reportagens de revistas como “a leoa do Planalto”, tinha um fusquinha, do qual se valia para encontros à moda antiga com Itamar nas “tesourinhas” do desenho urbanístico da Capital projetada por Niemeyer. Isto despertou o faro político de Itamar, no sentido de contemplar as camadas de menor poder aquisitivo. Sofreu o diabo de adversários e nas mãos da mídia. Mas o fusquinha inaugurou uma nova Era nos costumes políticos brasileiros. O Brasil ficou devendo mais essa ao “mercurial” Itamar Franco.

 

 

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