Garotas Geeks | Relato: Como “No Aranhaverso” mudou meu relacionamento com a representatividade

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Relato: Como “No Aranhaverso” mudou meu relacionamento com a representatividade

Pessoas apenas querem ser vistas.

*O texto a seguir é a tradução de um artigo escrito por Javier Reyes, para a página Nerdist. A fim de que seja conservada a fidelidade ao texto original, foram mantidos a pessoalidade no texto e os relatos particulares. *

No início deste outono, eu estava navegando através do Twitter (como qualquer um), e acabei cruzando com uma reação um tanto saudável de um streamer sobre o novo jogo Spider-Man: Miles Morales. O jogo por si já parece fantástico em um nível de base, mas também apresenta algumas referências à ascendência porto-riquenha do protagonista. Isso causou uma reação emocionada daquele streamer. Era um dos raros momentos positivos no aplicativo do passarinho. E também era um momento, que até pouco tempo atrás, eu não apreciaria. Na verdade, não seria até que Miles Morales ou, mais especificamente, Homem-Aranha: No Aranhaverso, me fizesse começar a realmente entender o poder da representatividade.

Apesar de ter crescido como o porto-riquenho que sou, o problema da representatividade era algo que raramente passava pela minha mente. Eu certamente sabia que havia um problema de disparidade, mas isso não ocupava muito espaço no reino vazio e cheio de teias de aranha que é conhecido como o meu cérebro.

Pela maior parte da minha vida, eu aprendi a aceitar as coisas como elas eram: que a indústria do entretenimento jamais ligaria para a minha cultura e raramente sequer a reconheceria.

Nos estágios mais iniciais da minha profundamente introvertida adolescência, grandes lançamentos do cinema – e certamente, filmes de super-heróis, que eu amava mais do que tudo – raramente colocavam personagens hispânicos sob os holofotes. Na maior parte do tempo, a cultura popular mainstream jogava personagens hispânicos para papéis terciários. Ou pior, para ultrapassados e irritantes estereótipos. Personagens hispânicos barulhentos e desajeitados – ou o clássico traficante/membro de cartel da história – eram algo excessivamente comum. Um exemplo, no primeiro filme de Transformers, pode resumir bastante como a cultura é tratada. Um personagem é esculachado por falar espanhol. “Inglês, cara, inglês!” é uma linha que ilustra bem o incômodo de Hollywood com pessoas hispânicas terem orgulho de sua própria cultura.

E o engraçado é que isso não me incomodava muito. Meus personagens favoritos eram majoritariamente brancos (e continuam sendo! Atenção para Naruto Uzumaki, o verdadeiro rei), e eu não via nada de particularmente errado com isso. Eu cresci lendo meus amados quadrinhos de Ultimate Spider-Man, que continuaram a ser minhas histórias favoritas em qualquer meio de mídia. Eu nunca incomodei ninguém que gastava seu tempo e energia criticando a arte contemporânea por sua falta de diversidade; era uma causa nobre!

Na verdade, eu estava, em uma palavra, apático. Eu nunca tinha passado pelo meu momento de “Uau, representatividade importa! Eu sinto isso!”.

Mas é claro, como sempre acontece, eu recebi uma bola curva de emoções inesperadas ao assistir ao filme Homem-Aranha: No Aranhaverso. O Homem-Aranha sempre foi meu personagem preferido, mas eu nunca esperei que essa obra fosse tamanha obra-prima, genuína e universalmente amada (Eu tenho certeza que seria mais difícil encontrar alguém que não tenha gostado do filme do que encontrar literalmente o Santo Graal).

Entre uma infinidade de motivos, o que fez o filme ser tão poderoso foi sua capacidade de realmente entender do que se trata a representatividade.

Minha cena preferida do filme é a apresentação de Miles. É uma sequência curta, quase inconsequente, em que vemos Miles se arrumando para a escola, descendo pelo bloco de sua vizinhança, e organicamente falando em espanhol. Foi natural, nada forçado e estava ali. Me levou de volta aos dias em que eu era jovem e visitava minha família em Porto Rico; eu sequer falava espanhol, mas existe algo sobre ouvir a língua sendo falada. Mesmo aqueles momentos em que meus parentes estavam gritando obscenamente em minha direção para que cumprisse minhas tarefas voltaram para a minha cabeça, para bem ou para mal.

Depois de assistir Miles casualmente falando em espanhol pela primeira vez, eu tive o mais besta dos sorrisos carimbados na minha cara.

Aquele pequeno gesto significou o mundo para mim. Era uma demonstração casual da minha cultura, uma coisa viva e fluente, que corria como algo que não era nada além do comum. Naquele momento, pela primeira vez, eu realmente me senti representado.

Em vez de uma mensagem gravada e reproduzida por um megafone através dos corredores da falsa consciência, foi mais como um tapinha no ombro e um convite para a mesa de jantar. Eu sinceramente penso que tem algo de muito bonito nisso.

A sensibilidade de No Aranhaverso e seu entendimento sobre representatividade vão muito além de Miles e seu histórico porto-riquenho e afro-americano. Graças à inclusão de pessoas-aranha como a Gwen-Aranha (a definição de radical, falando nisso), o filme possui um punhado de diversidade sem ficar alardeando isso. Peter Parker é o Homem-Aranha original, e como um quadro branco para a história, mas não existe um verdadeiro ou único Homem-Aranha. Em vez disso, todos esses Aranhas coexistem de maneira extremamente natural. Existe uma união entre eles que nunca parece forçada (como acontece naquela cena em Vingadores: Ultimato, em que as heroínas afirmam “Ela tem apoio”, em que a Disney claramente queria dar um tapinha nas costas).

Mesmo durante a minha vigésima sétima exibição do filme, eu engasguei. Aranhaverso destravou alguma coisa em mim. Desde então, eu comecei a entender um pouco melhor por que a representatividade importa. Minha apatia com relação ao tema desapareceu, e isso se tornou algo que eu procuro mais ativamente no meu consumo de cultura pop. A ignorância da “América Branca” com relação aos outros era algo que eu não percebia. Mas hoje, essa é a primeira coisa que vem à minha mente.

Eu sinto uma certa quantidade de raiva de quem incendeia essa retórica de “representatividade forçada” – como se apenas mostrar pessoas não-brancas, mulheres ou pessoas não binárias, fosse uma espécie de fardo. Pessoas apenas querem ser vistas. E eu juro que como um garoto porto-riquenho que cresceu em meio a tantos personagens majoritariamente brancos, não é uma tarefa tão hercúlea abrir o seu coração para outros tipos de histórias.

Texto traduzido da Nerdist.

Leia mais sobre Homem Aranha: No Aranhaverso aqui no site!

Débora é musicista, professora de artes, pesquisadora de sociologia de gênero. Autoproclamada otaku-não-fedida e gamer casual. A alcunha de Liao veio de um site aleatório de geração de nomes japoneses (Liao é chinês, mas tudo bem).