Eduardo Bolsonaro, de repente, talvez traduza o que é jeitinho brasileiro

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Eduardo Bolsonaro, de repente, talvez traduza o que é jeitinho brasileiro
Eduardo Bolsonaro, de repente, talvez traduza o que é jeitinho brasileiro

No dia 17 de agosto de 1962, com as labaredas de uma crise institucional no Brasil ardendo em torno do presidente João Goulart, que acabou deposto por uma “quartelada”, a Embaixada da Grã-Bretanha no Brasil enviou a Londres um relatório afirmando que os brasileiros poderiam dar um “jeito” na crise crônica que marcava aquele governo. Textualmente, a Embaixada britânica relatava: “O único sinal de conforto que ouso oferecer é dizer que os brasileiros têm uma palavra para descrever a habilidade em encontrar uma saída para suas dificuldades: “jeito”, uma palavra intraduzível em qualquer outra língua, mas que significa, genericamente, um estratagema ou acordo de bastidores. Com frequência, “dar um jeito” não é nem sério nem inteiramente moral, mas é bastante eficiente. Tenho estado no Brasil por tempo suficiente para não afastar a possibilidade de que um “jeito” será encontrado para resolver a crise atual”.

Em meio à polêmica atual desencadeada pela ridícula decisão do presidente Jair Bolsonaro de ver o filho Eduardo ungido embaixador do Brasil nos Estados Unidos, ocorre-me a ideia de que, para alguma coisa, sirva essa prebenda ou esse regalo de pai para filho. De repente, o Eduardo pode traduzir para os americanos da Era Trump o que é, afinal, o famoso “jeitinho” brasileiro. Já aí terá dado uma contribuição valiosíssima, levando-se em conta que, além de intraduzível, o “jeitinho” brasileiro costuma dar um nó na cabecinha esquisita de forasteiros que aqui desembarcam em busca de riqueza e de aventuras. O Brasil, meus amigos e minhas amigas, continua sendo o “grande enigma” lá fora, porque produz coisas que só podem ser produzidas aqui – e em mais nenhum outro lugar.

O relato sobre o pasmo dos ingleses com o “jeitinho brasileiro” consta do delicioso livro do jornalista Geneton Moraes Neto, “Dossiê Brasil – As histórias por trás da História recente do país”. Conheci Geneton, fui seu colega quando atuei como correspondente do jornal “O Estado de São Paulo”, ele atuando como repórter especial da sucursal do Recife do matutino dos Mesquita, como era chamado na década de 80. De verve afiada e texto irretocável, Geneton, que já não está entre nós, deixou legado precioso sobre episódios da cena brasileira antes nunca explorados ou dissecados pelos coleguinhas de imprensa ou por historiadores. Em “Dossiê Brasil”, Geneton menciona outro relatório “restrito” saído da Embaixada britânica, a 3 de agosto de 1962, em que a legação diplomática torcia para que o então presidente João Goulart  não caísse na tentação de se transformar num Nero brasileiro. “A real saída para a situação se encontra nas mãos de Goulart. Só posso esperar, sinceramente, que ele não me faça lembrar do imperador Nero”.

Em análise de 11 de abril de 1963, um relatório “restrito” da embaixada do Reino Unido nestes atuais tristes trópicos divertia-se com neologismo que mostra um pouco da política brasileira do momento. Abrindo aspas: “Jornais de todas as tendências políticas mostram que existe uma cristalização das posições, tanto da esquerda quanto da direita. Isto significa que o presidente se encontra sob pressão direta (…) Acusam Leonel Brizola de vacilo. O vocabulário local foi enriquecido pela esplêndida nova palavra “cunhadismo”. A tradição liteeral poderia ser “brother-in-law-ism”, uma expressão que, entretanto, não tem o sabor deliciosamente austero da palavra em português”. Uma gracinha, concordam?

Diplomatas que aqui aportaram para tentar traduzir o “intraduzível” também relatavam que brasileiros gostam de chegar à beira do abismo e então recuar. Espremendo os documentos “restritos” e “confidenciais” que o arguto Geneton acabou desvendando, chega-se à conclusão de que o esporte predileto ou a missão especial de embaixadores e diplomatas de outras espécimes é a bisbilhotice. Não são raros os adjetivos colados nas imagens de figurões de proa da política tupiniquim, encarados como exóticos, atabalhoados – enfim, tipicamente brasileiros. Em matéria de análise política, os relatórios nem sempre eram confiáveis. Houve prognósticos que eram simplesmente risíveis, concebidos por quem desconhecia a gênesis da alma brasileira. Havia um “medo pânico” de agravamento do impasse institucional brasileiro, com guinada à esquerda. Não é a toa a insinuação que se segue: “O perigo é que alguma explosão possa ocorrer entre agora e 1965. Se falharmos na missão de evitar uma guerra civil e se o resultado for uma ditadura de esquerda, o Brasil pode tornar-se um aliado de Fidel Castro”. Pensando bem, diante das condições atuais de temperatura e pressão, talvez o Eduardo Bolsonaro seja o “cara”, talhado para missões em Washington. Pelo menos na bisbilhotice e na intriga, ele é muito bom!

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