Doria dá a Sérgio Moro medalha que Burity recusou das mãos de Maluf

0
147
Doria dá a Sérgio Moro medalha que Burity recusou das mãos de Maluf
Doria dá a Sérgio Moro medalha que Burity recusou das mãos de Maluf

O governador de São Paulo, João Doria, programou para a tarde desta sexta-feira a entrega da medalha da Ordem do Ipiranga, a mais alta condecoração do Executivo paulista, ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, levando em conta os “relevantes serviços” prestados ao país. Além de Moro, foram listados como agraciados, com a medalha, políticos citados na Operação Lava-Jato, que o ministro comandou e que figuraram em inquéritos, a exemplo de Edson Lobão, Arlindo Chinaglia, Fernando Collor de Melo. Na década de 80, o então governador da Paraíba, Tarcísio Burity, já falecido, foi convidado por Paulo Maluf, governador de São Paulo, a receber a condecoração no Palácio dos Bandeirantes, mas alegou “compromissos superiores” e não compareceu. Alegou-se, naquele período, que, na verdade, Burity desistira da medalha ao saber que um adversário político seu, o senador Maurício Brasilino Leite, também fora agraciado.

O episódio envolvendo Burity ocorreu em 1981. Ele fora escolhido, por via indireta, governador da Paraíba, investindo-se no cargo em 1979. Em 86, Burity voltou ao governo pelo voto direto, concorrendo pelo PMDB. Maluf estava numa fase de aproximação e assédio a políticos paraibanos, interessado em cortejar seus votos ou apoios para uma candidatura a presidente da República. Na última eleição indireta, apelidada de “biônica”, pela mídia, Maluf bateu chapa em convenção do PSDS com Mário Andreazza e foi ungido. Ao disputar com Tancredo Neves (PMDB) no Colégio Eleitoral, todavia, perdeu devido a defecções que se verificaram no bojo de uma dissidência surgida no interior do partido de sustentação do regime militar. Quanto a Maluf, chegou a visitar a Paraíba em busca de votos para tentar sua ascensão ao Palácio do Planalto. Chegou oferecendo ambulâncias a prefeitos e passagens aéreas para deputados federais e estaduais.

Embora, numa das ocasiões em que veio à Paraíba, Maluf tenha sido ciceroneado pelo respeitado ex-governador João Agripino, os laços estreitos do político paulista eram com integrantes do “Grupo da Várzea”, que entrou em conflito com Burity e “virou” a Mesa da Assembleia Legislativa, elegendo Fernando Milanez presidente da Casa, com o apoio de deputados do PMDB. O deputado federal Joacil de Brito Pereira, no auge do rompimento com Burity, chegou a apelidar o governador paraibano de “macrocéfalo biônico”. Os dissidentes a Burity provocaram uma visita, ao Estado, do ministro da Justiça do governo Figueiredo, Ibrahim Abi-Ackel, que tentou mediar uma solução, inutilmente. A jornalistas, Ibrahim Abi-Ackel referiu-se a Burity como um “político não convencional”, característica que dificultava o exercício da liderança sobre filiados de uma mesma agremiação.

Paulo Salim Maluf, cujo último sobrenome virou verbo, no dicionário, como sinônimo de corrupção (“malufar”) foi ostensivo na campanha para cooptar votos de convencionais e delegados partidários e praticamente montou um balcão de barganha nas incursões por solo paraibano. Não conseguiu escapar de vaias na cidade de Campina Grande, que visitou. A prodigiosa memória de Maluf não impediu que ele cometesse gafes no assédio a políticos. Ao ser apresentado ao deputado estadual Aloysio Pereira, filho do “coronel” José (Zé) Pereira, que liderou revolta e instituiu a “República Livre de Princesa Isabel”, Maluf insinuou que o pai de Aloysio havia inspirado a célebre marcha carnavalesca “Viva Zé Pereira”, o que contrariou Aloysio a ponto de ele não mais assumir compromisso com o candidato oficial do PDS.

João Doria, que ingressou na política como um “outsider”, teve carreira fulminante. Em pouco tempo se elegeu prefeito de São Paulo, Capital, e, na sequência, foi vitorioso ao governo do Estado. Já se projeta como grande alternativa do PSDB para a sucessão presidencial, que ainda vai ser definida quando o governo de Bolsonaro estiver descendo a ladeira. Bolsonaro, que havia dito não ter a mínima pretensão de postular a reeleição, passou a admiti-la, embora esteja concluindo ainda os primeiros seis meses de mandato. Interlocutores diretos do presidente da República acreditam que Bolsonaro reforçará substancialmente seu cacife se conseguir aprovar a reforma da Previdência. João Doria, naturalmente, não partilha dessa tese e já deixou claro que em qualquer hipótese colocará seu nome à disposição do partido para vir a ocupar o figurino de candidato a presidente da República. Com a distribuição de medalhas a personalidades, não só do meio político, mas, também, da classe artística, João Doria busca pavimentar os caminhos que poderão levá-lo à unção nas urnas. Mas o cenário, a dados de hoje, é imprevisível, e Doria corre o risco de ser atropelado em plena cruzada rumo ao Palácio do Planalto.

 

Deixe uma resposta