Dia da Água: indígenas recuperam por conta própria rios assoreados no Litoral Norte da Paraíba

Foto: Fernanda Sorragi

Um grupo formado por integrantes das aldeias potiguaras Alto do Tambá e Forte têm recuperado os rios assoreados localizados na Baía da Traição, Litoral Norte da Paraíba. O ‘Projeto Limpeza dos Rios’ começou em 2021 e já devolveu a utilização social do Rio Aterro, que estava obstruído há 40 anos. O objetivo é a limpeza de todos os rios do território para o trabalho e lazer das comunidades.

Antes do projeto, os rios estavam cheios de aningas, uma planta aquática que chega a 4m de altura, por isso as aldeias não conseguiam aproveitar as águas. “A gente já pode lavar roupa, tem uma parte do rio que já tá limpa e já se pode pescar”, diz Fernanda Soraggi, integrante do projeto.

Nesta terça-feira (22), é comemorado o Dia Mundial da Água. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para colocar em pauta questões essenciais ligadas aos recursos hídricos. Muito antes disso, no entanto, o povo potiguara ensina que o cuidado pelas águas faz parte da cultura do seu povo desde as primeiras gerações.

“O processo de limpeza manual dos rios sempre aconteceu no povo potiguara, que usam o rio com meio social: pescando, lavando roupa e louça, tomando banho e brincando no rio. Então esse rio que a gente está limpando, já era usado há muitos e muitos anos. Essa limpeza era feita como uma via de mão dupla: o rio era usado e, depois, era limpado. É dessa forma que a gente está fazendo”, explica Fernanda.

O projeto teve início em janeiro de 2021. Quem fez a proposta foi o agricultor Cedinha, um dos mais velhos da aldeia Forte. Ele cresceu brincando no rio Aterro e se sentia incomodado em ver que ninguém mais estava cuidando. “Ele puxou a responsabilidade para ele mesmo e falou: vamos limpar? E chamou alguns integrantes, todo mundo aqui vive perto um do outro, então começaram o processo”, conta Fernanda.

O rio Aterro é afluente do Rio Sinimbú. O objetivo é recuperar todo o Sinimbú, curso d’água que banha o município de Baía da Traição. Segundo o grupo, o rio maior está bem assoreado, de forma que para sua limpeza será preciso maquinário, pois não é possível fazer apenas através do processo manual.

“Se caso outras aldeias queiram, a gente pode expandir esse projeto para todos os rios do território, mas por enquanto trabalhamos no Aterro e no Sinimbú”, diz Fernanda.

O projeto conta com apoio totalmente voluntário. “São integrantes que acordam no sábado e falam: eu quero ajudar. São pessoas que nos acompanham nas redes sociais e se sensibilizam com nosso projeto”, conta Fernanda. Em novembro, eles realizaram uma campanha solidária para compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como bota e camisa UV: “é tudo voluntário, tudo na base da doação, tudo na base do acreditar mesmo no projeto”.

Manter o rio vivo

Poran, liderança potiguara da aldeia Alto do Tambá, comenta que os rios são muito importantes, não só para os potiguara, como para os indígenas de todo Brasil: “o rio acaba sendo a principal fonte de água da gente e de alimento também. Além de possibilitar água para consumo e para que a gente possa tomar banho, o rio também nos oferece os peixes”.

As aldeias também plantam nas proximidades do rios, pois, por ser mais úmido, é uma área mais rica em nutrientes, ensina Poran.

É possível recuperar os rios?

Segundo a professora e pesquisadora de ecologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Maria Cristina Crispim, é possível despoluir e restaurar os rios: “precisamos ver quais são os principais problemas e agir no sentido de corrigir esses erros”.

A sujeira, na maioria dos casos, é esgoto doméstico não tratado. Há várias formas de tratar esgoto a baixo custo de forma individual ou coletiva, explica a especialista. “As nossas estações de tratamento de esgoto são muito ineficazes, lançam os efluentes ricos em coliformes fecais, nutrientes (adubo), que tornam os rios ricos em plantas aquáticas, como os que vemos atualmente, principalmente os urbanos”, diz.

Também há formas biológicas de reverter essa situação, usando a biorremediação, explica a pesquisadora.

Com g1 Paraíba