Com novas recomendações, OMS tenta frear explosão de cesáreas

Com novas recomendações, OMS tenta frear explosão de cesáreas

Brasil tem 2ª maior taxa de intervenções, com mais de 50% dos nascimentos ocorrendo pelo procedimento.

Brasil tem segunda maior taxa de intervenções durante o parto, com mais da metade dos nascimentos ocorrendo por meio de cesáreas.

Num esforço para reduzir o número de cesáreas praticadas no mundo, a
Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou nesta quinta-feira (15),
novas recomendações sobre padrões de tratamento e cuidados relacionados a
mulheres grávidas. O objetivo é reduzir “intervenções médicas
desnecessárias”.

De acordo com a OMS, 140 milhões de nascimentos ocorrem no mundo a
cada ano. A maioria sem complicações. “Ainda assim, nos últimos 20
anos, médicos aumentaram o uso de intervenções que eram destinadas antes
apenas para evitar riscos e tratar complicações, com a infusão de
oxytocin para acelerar o parto ou cesáreas”, indicou a OMS. 

“A crescente medicalização de um processo normal de nascimento
está minando a capacidade das mulheres de dar a luz e impactando de
forma negativa sua experiência no nascimento”, afirmou Nothemba
Simelela, diretora-geral assistente da OMS. Para ela, não há
necessidades de receber intervenções adicionais para acelerar o parto se
mãe e filho estiverem em boas condições.

A entidade alerta que, nos últimos anos, uma “proporção
substancial” de grávidas saudáveis foi alvo de pelo menos uma
intervenção durante um parto. 

Com dados de 2016, a OMS aponta o Brasil como um dos líderes em
cesáreas no mundo e alerta que o aumento nas práticas em partos se
transformou em uma “epidemia”. A entidade estima que a taxa média
mundial de cesáreas seria de 18,6% dos partos. Em 1990, esse índice
era de apenas 6%. 

Em média, a taxa de cesáreas hoje na Europa é de 25%, contra 15%
há 20 anos.  Já nos EUA, a taxa é de 32,8%. No Brasil, os dados de 2016
mostram que 55,6% dos partos no País foram cesáreas, a segunda maior
taxa do mundo, superada apenas pela da República Dominicana, com 56%. 

Medidas

Na esperança de reverter a situação ou pelo menos frear o aumento de
casos, 56 medidas foram anunciadas pela entidade. Elas incluem uma
melhor comunicação entre médicos e as mães, permitir que sejam as
mulheres que também possam opinar sobre sua administração da dor durante
o processo de dilatação e posições para o parto. 

Um dos aspectos centrais da recomendação é a de reconhecer que
cada parto é “único” e tem um ritmo diferente. Cada grávida, portanto,
deve ser informada que não existe um padrão a ser respeitado, ainda que
em geral um prazo máximo possa ser estabelecido.

“A duração do primeiro estágio varia de mulher para mulher e, no
caso de um primeiro parto, não se estende além de doze horas”, aponta.
“Em fases seguintes, ele não ultrapassa dez horas de trabalho de parto”,
explica. 

Para reduzir intervenções médicas desnecessárias, a OMS agora
alerta que a dilatação cervical precisa ser repensada. O ritmo de 1 cm
por hora de dilatação na primeira fase do trabalho de parto – padrão
usado para medir o progresso do caso – seria “irrealista” para algumas
mulheres e poderia ser “inexato para identificar mulheres sob risco”.  

Pelas novas recomendações da OMS, uma taxa de dilatação mais
lenta não deve ser um indicador de rotina para determinar se uma
intervenção deve ou não ocorrer para acelerar o trabalho de parto. 

Na avaliação da agência de saúde da ONU, é o envolvimento da
mulher nas decisões do trabalho de parto que poderia mudar essa
realidade. Entre as recomendações, a entidade pede que médicos informem
as mulheres sobre a duração do parto. 

Recursos

Para a OMS, as intervenções médicas em trabalhos de parto estão
“generalizadas” em muitos países. Mas isso coloca uma pressão extra nos
serviços de saúde e aprofundariam ainda mais a disparidade nos
tratamentos.

Na avaliação da entidade, uma redução no número de cesáreas
desnecessárias liberaria recursos para casos em que o risco é real.
Enquanto o número de cesáreas e parto com hora marcada aumenta, a
entidade destaca que 830 mulheres morrem diariamente ao dar à luz. “Isso
poderia ser evitar com um cuidado de maior qualidade”, aponta.