Burity e as sucessivas mudanças de partido: refém das circunstâncias

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Burity e as sucessivas mudanças de partido: refém das circunstâncias
Burity e as sucessivas mudanças de partido: refém das circunstâncias

Esse episódio da insubmissão partidária de deputados do PDT e PSB que votaram a favor da reforma da Previdência e estão sendo punidos pelas cúpulas nacionais, de que é exemplo maior a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), faz-me lembrar a diáspora do falecido ex-governador da Paraíba, Tarcísio Burity, pelas siglas, o que lhe rendeu dissabores e insinuações de personalismo, além da referência de que ele se considerava acima das agremiações. Como pontuou Burity em esclarecimento ao jornalista Severino Ramos, as sucessivas mudanças de partido decorreram de circunstâncias que o tornaram refém e que o impeliram a ser afirmativo até como estratégia de sobrevivência. Adicionalmente, subsistia o fato concreto de que ele era egresso de uma família sem tradição política. “Só passei a ter uma convivência com os políticos depois que fui eleito governador”, confessou ele.

Burity transitou pela Arena, pelo seu sucedâneo, o PDS, depois pelo PFL, ingressou no PMDB, foi do PTB, do PRN, etc, etc. Era um trânsfuga? Na opinião dele, nada disso. Cada caso era um caso que devia ser avaliado em sua dimensão. Por exemplo: ele entrara na Arena, que, depois, foi extinta, tornando-se PDS. Sua avaliação era a de que não se deu propriamente uma troca de sigla da sua parte, mas uma adequação à conjuntura nacional. De resto, entendia que prevaleciam as mesmas diretrizes políticas e partidárias. O que mudava, em essência, no caso, era o rótulo. No PDS, Burity integrou um bloco de 47 parlamentares que pregavam eleição direta para presidente da República. Incoerência? Que nada! A defesa das diretas estava no programa do partido. Só que era uma ideia para inglês ver.

Aliás, foi o ex-ministro e deputado federal Ernani Sátyro quem me alertou, uma vez, durante entrevista em que se discutia a questão partidária, para uma peculiaridade do PDS pouco explorada pelos próprios filiados ilustres: o partido, a despeito de ser chamado de reacionário e de avalista da ditadura militar instaurada em 1964, tinha, paradoxalmente, um dos mais avançados programas da conjuntura nacional, suplantando, inclusive, o velho Partido Comunista Brasileiro. “O PDS, amigo velho, é o único partido que defende, na sua doutrina, a co-gestão”, lembrou Ernani, referindo-se ao princípio da divisão de lucros entre patrões e empregados, que constituía, na época, bandeira de sociais-democratas da Europa e, também, de alguns regimes socialistas. Excusado lembrar que Sátyro era visceralmente anticomunista, mas, ironia da política, apoiava a co-gestão. Que permaneceu praticamente no papel, já que a prática dos gestores eleitos pelo PDS em nenhum momento, em qualquer Estado ou na administração federal, contemplou ou consagrou esse postulado.

Burity queixava-se da rigidez imposta por cúpulas partidárias a filiados, no tocante a princípios e ao cumprimento de deliberações por ele consideradas esdrúxulas. Dizia que as direções estavam impondo uma “camisa de força”, desprezando o potencial eleitoral obtido pelos parlamentares e o significado dos votos a eles atribuídos. Considerava que enquanto os políticos com mandato estavam sintonizados com as aspirações populares, as cúpulas optavam por fechar-se numa redoma, indiferentes à voz rouca das ruas. Por isso havia dissidências. Aliás, em plena ditadura militar, dois políticos paraibanos que gravitavam no mesmo reduto, a cidade de Sousa, foram dissidentes em siglas distintas: No MDB, Marcondes Gadelha foi expoente do “grupo autêntico”, que oxigenou o partido além da conta, retirando-o da mesmice e da acomodação em que se encontrava. Na Arena, Antônio Mariz alistou-se no grupo “Participação”, que contestava decisões emanadas do centro de poder e propunha modificações somente tempos mais tarde absorvidas, no governo Figueiredo, com a distensão política, e a abertura econômica.

No que diz respeito a Burity, a sua inconstância partidária foi alimentada, também, pela emulação com adversários políticos estaduais, cuja estratégia consistia, a todo custo, em minar os seus espaços de atuação política. Basta um exemplo para ilustrar essa atmosfera que ele vivenciou. Wilson Braga foi o único governador a apoiar Paulo Maluf no colégio eleitoral indireto que escolheria o presidente da República em 1985. Tarcísio Burity, então filiado ao PFL, incorporou-se à candidatura de Tancredo Neves, que era filiado ao PMDB. Derrotado, Braga fez de tudo para expulsar Burity do PFL e entrar na Aliança Democrática, ainda que de última hora. Conseguiu o feito porque tinha estrutura partidária no Estado e era governador. A cúpula nacional do PFL ignorou o papel desempenhado por Burity na travessia difícil do Rubicão e privilegiou Braga. A polêmica atual envolvendo a deputada Tabata Amaral e outros dissidentes, de legendas variadas, deveria servir de oportunidade para uma reflexão das próprias cúpulas sobre a distância que ainda prevalece entre a vontade delas e a representatividade dos detentores de mandatos, que foram às ruas para chegar ao Congresso ou aos governos estaduais.

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