Bolsonaro tenta ser um novo Jânio, sem a cancha histriônica de Jânio

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Bolsonaro tenta ser um novo Jânio, sem a cancha histriônica de Jânio
Bolsonaro tenta ser um novo Jânio, sem a cancha histriônica de Jânio

O que se previa, aconteceu. Travado pela própria incompetência no desafio de governar o Brasil, o presidente Jair Bolsonaro compartilhou, ontem, em grupos de WhatsApp, texto produzido por um tal Paulo Portinho, obscuro ex-candidato pelo Partido Novo no Rio de Janeiro, com avaliações apocalípticas sobre a atual conjuntura nacional, onde supostos avanços seriam obstaculados por interesses de corporações, aí incluído o Poder Judiciário. O libelo é feito sob medida para tornar Bolsonaro vítima e refém desses interesses e para comover segmentos da opinião pública a apoiá-lo decididamente, emparedando instituições como o Congresso Nacional, que não se dobrou, ainda, à proposta de reforma da Previdência.

O capitão reformado que foi alçado à presidência da República sem nenhum descortínio sobre os problemas brasileiros e a forma de equacioná-los apela, agora, desesperado, para uma caricatura. Tenta repetir o ex-presidente Jânio Quadros, que na carta-renúncia expedida poucos meses depois de assumir o governo, em 1961, declarou: “Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração”. Jânio, pelo menos, tinha cancha histriônica, de que são emblemáticos o “fi-lo porque qui-lo”, as roupas desleixadas e os cabelos desalinhados. Nele, esse perfil se encaixava porque, na prática, Jânio era um ator do palco político. Além do mais, era avesso a partidos, elegia-se por coalizões improvisadas e ocultava instintos autoritários enquistados na sua formação de bedel conservador.

Não é fácil governar uma Nação como o Brasil, com suas múltiplas diferenças sociais, raciais, econômicas, políticas, ideológicas, formando uma espécie de caleidoscópio, de sincretismo na argamassa do seu povo. Mas é possível governar o Brasil quando se tem o preparo adequado, o domínio mínimo da natureza dos seus desafios e a abertura para promover adesões naturais à governabilidade. Jânio ainda divertia o País com suas proibições que alcançavam o uso do biquíni nas praias e brigas de galos. Pecou porque, como observa o historiador Jaime Klintowitz, queria implantar uma ditadura civil, governar sem o embaraço de lidar com um Congresso hostil. Anota Klintowitz: “Para o populista que pensou ter todas as cartas na mão, foi um tremendo fiasco. Para o país, foi uma desgraça. A renúncia desencadeou a sucessão de crises que levou à morte da democracia em 1964. Jânio jamais se desculpou”.

O atual presidente Jair Bolsonaro, que carece de habilidade política estratégica e possui noções apenas rudimentares sobre os males do Brasil, foi tomado de empréstimo como alternativa, nas eleições de 2018, por exclusão. Havia um embate de segmentos ponderáveis da opinião pública contra o Partido dos Trabalhadores, cujos governos traíram compromissos de reformas sociais e econômicas, implodiram esperanças e abriram campo para a corrupção deslavada. Outros partidos, mais tradicionais, como PSDB, Democratas e MDB, estavam desgastados demais para poder atrair votos que elegessem um presidente. No MDB o ex-presidente Michel Temer não logrou ter apoios, sequer, para postular uma recandidatura – ultimamente, de forma melancólica, anexou ao currículo a alcunha de presidiário, com passagens por presídios no bojo de processos de corrupção. Bolsonaro, uma espécime da aparente nova direita e da fina flor do reacionarismo político brasileiro, expôs-se como “outsider”, descompromissado de partidos políticos mas ajoujado a ideologias tacanhas mesmo sem o mínimo conhecimento de causa. Não exibiu na campanha porte de estadista e, já no governo, obcecou-se por desmontar o que foi implantado pela estrutura lulopeetista, sem,contudo, oferecer contrapartida, representada, por exemplo, num modelo próprio, diferente e coerente com as mudanças exigidas pela sociedade e pela sua dinâmica.

O governo Bolsonaro desenrola-se num cenário de balbúrdia que é propício à desorganização administrativa, até mesmo ao caos, como tem se verificado na Educação, onde, a pretexto de fazer um expurgo ideológico contra a esquerda, o presidente tenta reinventar modelos de ensino sem bagagem para tanto (de acordo com uma antiga reportagem da revista Veja, seu nível intelectual no oficialato era tão baixo que ele ganhou o apelido de bunda-suja, termo peculiar ao Exército). Em pouquíssimo tempo o presidente já trocou o ministro da Educação duas vezes, deixou-se ludibriar por um astrólogo vigarista radicado na Flórida, EUA, que toma como guru (Olavo de Carvalho) e paralisou a economia, diante da indefinição sobre as linhas-mestras do que seria o seu governo. Perdido, tal como Jânio, insinua a ópera da ingovernabilidade que pode conduzir à renúncia. Coitado do Brasil!

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