Bolsonaro e equipe: a obrigação de acertar, no governo pós-Temer

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Bolsonaro e equipe: a obrigação de acertar, no governo pós Temer
Bolsonaro e equipe: a obrigação de acertar, no governo pós Temer

Não só por ter sido um “outsider” na política, mas por ter derrotado nas urnas a narrativa do Partido dos Trabalhadores, que prometeu a brasileiros e brasileiras o paraíso, como nunca, antes, houvera sido entronizado na história deste país, de acordo com o ex-presidente presidiário Luiz Inácio Lula da Silva, que acabou enredado na prática da roubalheira e da dissimulação, o presidente Jair Bolsonaro e equipe assumirão o governo com a obrigação de acertar. Não é força de expressão, mas, sim, uma projeção da grande expectativa que está criada diante do “novo”. Em certa medida, Bolsonaro significa, para parcelas esclarecidas da sociedade, uma caixa-preta a ser desvendada. Ou, numa visão mais ácida, um aventureiro candidato ao desastre, por ignorância sobre os problemas fundamentais deste imenso território.

As dúvidas sobre o preparo de Bolsonaro para administrar um contencioso chamado Brasil foram suscitadas e realimentadas diante da sua quase abstinência de opiniões acerca de graves desafios que terá de empalmar. Quando partiu para oferecer respostas, diante de cobranças inevitáveis da imprensa e de segmentos organizados da sociedade, o presidente eleito mergulhou numa sarabanda patética de afirmações e desmentidos, de avanços e recuos, como se estivesse protagonizando as sístoles e diástoles de um certo processo ultrapassado no cenário nacional, coincidentemente interligado a extrações militares, de onde provém o candidato-fenômeno que derrotou Fernando Haddad, Ciro Gomes, Marina Silva e outros na peleja eleitoral deste ano.

Ainda não está claro, para segmentos abalizados da opinião pública, se a investidura de Bolsonaro, com a predominância de militares na constelação do governo, equivale, guardadas as proporções, ao período autoritário que varreu o Brasil a partir de 1964, quando do triunfo de uma quartelada que se apresentou como revolução ou redentora, produzindo manifestações de chiste ou gozação pura, no exterior, acerca da seriedade do Brasil. Durante muito tempo temos sido alvos preferenciais de chacota, ora por mania de grandeza, ora por complexo de vira-lata a que aludia Nelson Rodrigues. Na ditadura militar propriamente dita caímos na euforia artificial decorrente do falso milagre econômico que, como se viu depois, favoreceu as elites atreladas ao sistema dominante. O povo, que segundo Aristides Lobo, assistiu bestificado à Proclamação da República, continua sendo massa de manobra, convocada pelas elites a dar aval a modelos impostos de cima para baixo, enquanto as forças políticas e sociais decadentes se fartam no banquete da minoria privilegiada.

Nota-se, contudo, que esse mesmo chamado a ser massa de manobra toma-se de consciência melhor, mais nítida e firme, quanto à defesa de valores como a democracia. Certas medidas que estão sendo acenadas pelo governo que treina o exercício do poder em seminários realizados a céu aberto em Brasília, “não passarão” pelo crivo da sociedade, nem a fórceps. Nem Bolsonaro terá força para empurrar goela abaixo no Congresso Nacional as medidas que forem, reconhecidamente, patenteadas com o timbre do retrocesso, da vanguarda do atraso. É esta, digamos, ilusão, que ainda salva os brasileiros verdadeiramente comprometidos com o futuro do país. Ao longo dos anos foram criados anticorpos contra tentações autoritárias e antídotos contra retrocessos nos avanços sociais, ligados à cidadania. Se Bolsonaro não se adequar a tanto, não será o caso de chamar um cabo e um soldado para forçarem a mudança de rota. As ruas poderão voltar a ser tomadas em refrões focados num instrumento que se tornou íntimo nosso: o impeachment. Assim é nas democracias, que fique claro!

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