Bethânia diz ter “a maior honra” de ser chamada de “paraíba”

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Bethânia diz ter “a maior honra” de ser chamada de “paraíba”
Bethânia diz ter “a maior honra” de ser chamada de “paraíba”

A primeira música que Maria Bethânia interpreta no show “Claros Breus”, que tem apresentações nesta sexta-feira (2) e sábado (3) no Credicard Hall, em São Paulo, é “Pronta pra Cantar”. Escrita por Caetano Veloso, tem um título autoexplicativo. A última, já no bis, é “Encanteria”, de Paulo César Pinheiro, dos versos “moço, apague essa candeia/deixa tudo aqui no breu/quero nada que clareia/quem clareia aqui sou eu”. Em cerca de 30 músicas, ela faz um percurso no qual há zonas claras e escuras e que termina com uma aposta na luz.

– Sinto o mesmo tesão de cantar, a mesma alegria, a mesma necessidade – assegura, aos 73 anos, num estúdio em São Conrado, na zona sul carioca. “Gosto de desafiar minha coragem. Naturalmente, a vida traz situações em que a gente pode não estar cantarolando. Mas pode estar cantando. E denunciando. O palco é um palanque como outro qualquer, uma tribuna”. Bethânia não costuma falar abertamente de política. Mas não deixa de se manifestar em muito do que canta. “Claros Breus” – que não marca lançamento de disco, pois este será gravado até o fim do ano – foi preparado em quatro shows realizados no Manouche, uma casa de cem lugares, no Rio de Janeiro. No show da quinta passada, ela inseriu “Caipira de Fato”, do repertório de Inezita Barroso, antes de “Águia Nordestina”, inédita de Chico César.

Dias antes, o presidente Jair Bolsonaro usara o termo “paraíba” para se referir aos nordestinos, além de vetar recursos para o Maranhão. “Como nordestina, me dói, não gosto que falem mal de minha terra e das minhas pessoas. Um austríaco não vai gostar se falarem que o Tirol é uma merda”, diz. “O Brasil é um país. Se você o preside, preside o país inteiro. Mas eu tenho a maior honra de ser chamada de “paraíba”. Na última segunda-feira, Bolsonaro disse que poderia contar ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, como o pai dele morrera em 1974. E embora documentos provem que Fernando Santa Cruz desapareceu depois de ser preso por militares, o presidente afirmou que o assassinato foi cometido por militantes de esquerda.

– Eu tive irmão exilado (Caetano Veloso), amigos meus foram embora, alguns desapareceram. É difícil ouvir isso como uma coisa simples, como se não fosse nada. Muito duro. Eu fico preocupada. Estou preocupada – disse Bethânia. A preocupação vem de outros acontecimentos recentes, como a morte de um cacique waiãpi, no Amapá, cujo assassinato foi desacreditado por Bolsonaro, e os conflitos em penitenciária no Pará, que resultaram em ao menos 58 detentos mortos, sendo 16 decapitados. “A crueldade está muito grande. É preciso jogar água fria. Não sei como fazer isso. Vou cantando, me expressando, reagindo. As coisas têm que acontecer. É isso ou morrer”. Ela volta a falar de coragem. “A vida exige coragem sempre. É preciso coragem para chegar a uma situação que traga alegria”.

A expressão “claros breus” deriva do verso “eu e meus breus”, de “A Flor Encarnada”, inédita de Adriana Calcanhoto. A canção é uma desolação total, nas palavras de Bethânia. “Mas é uma canção. Tem claridade porque é canção. A música clareia”. A música “Luminosidade”, também inédita do paraibano Chico César, foi um dos pontos de partida de “Claros Breus”. Outro foi “Sinhá”, de João Bosco e Chico Buarque, que a cantora exalta como “um acontecimento”.

Luiz Fernando Vianna Folha de S. Paulo/Ilustrada

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